Wilton Júnior/Estadão
Alimentos da cesta básica estão mais caros desde o ano passado, penalizando especialmente as famílias de baixa renda. Wilton Júnior/Estadão

Alta de preços desorganiza economia brasileira e empobrece a população

Mesmo sem ser uma hiperinflação, IPCA na casa dos 10% prejudica a atividade econômica e afeta diferentes segmentos; investimentos, supermercados e até mesmo as escolas já sentem os efeitos da inflação

Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 05h00

A inflação atingiu patamares que não se viam desde 2015, e passou a marca dos 10% (mais exatamente 10,73%, pelo IPCA-15 de novembro). Para quem viveu a época da hiperinflação, nas décadas de 80 e 90, isso não pode nem parecer muito. Mas não é um número trivial. A inflação alta desorganiza toda a economia. Para combatê-la, é necessário subir os juros, o que prejudica a atividade econômica.

O descontrole inflacionário tem efeitos em todos os setores, mas atinge principalmente o bolso das pessoas. Isso porque há um descompasso entre a correção dos preços e da renda. No mês passado, por exemplo, 70% dos acordos salariais fechados tiveram reajustes abaixo da inflação, aponta o Boletim Salariômetro, da Fipe.

Economistas especializados em inflação ressaltam que a situação atual ainda está longe do descontrole e da perda de referência de preços que ocorreu no período de hiperinflação. “A inflação hoje está mais persistente do que galopante”, diz o coordenador de índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), André Braz.

Para Guilherme Moreira, coordenador do IPC da Fipe, a perda de referência seria o primeiro sinal de hiperinflação, o que não é o caso atual. “Hoje o consumidor tem referência de preços”, diz. “O que ele não tem é renda para suportá-los.” Veja abaixo exemplos de como a inflação alta afeta o dia a dia das pessoas:

  • Investimentos perdem para a inflação:

Inflação em alta pode até significar maiores rendimentos nas aplicações financeiras, porque o remédio usado para conter os preços é o juro alto. No entanto, como se percebeu nos últimos meses, é difícil para quem tem dinheiro para aplicar conseguir ganhar da inflação. Os ganhos em renda fixa, em geral, repõem apenas parcialmente as perdas. E investimentos em renda variável, como ações, se tornam muito mais arriscados em uma economia desorganizada, característica dos períodos inflacionários.

  • Tarifas mais caras: 

Cerca de metade da inflação dos últimos 12 meses ocorreu por conta da energia elétrica e dos combustíveis. Gastos com energia ou gás de cozinha podem até ser reduzidos, mas dificilmente são substituídos pelas famílias. A perspectiva é que o fim, previsto para maio, da bandeira “escassez hídrica”, dê pelo menos um alívio nessa despesa. A bandeira especial foi criada e adotada este ano, e acrescenta uma tarifa extra cobrada nas contas de luz.

  • Combustível nas alturas:

A alta do dólar e das cotações do petróleo no mercado internacional provocaram um choque nos combustíveis. O preço médio do litro gasolina subiu de R$ 4,409 para R$ 6,744, de novembro de 2020 a novembro deste ano, segundo a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em alguns postos do País, o valor chegou a quase R$ 8. Já o litro do óleo diesel subiu de R$ 3,515 para R$ 5,359 no mesmo período. É um aumento que afeta diretamente as famílias que dependem do carro próprio e desequilibra o orçamento. Além disso, as empresas são prejudicadas em razão do maior custo do transporte, que acaba repassado para o preço final dos produtos e serviços. 

  • Reajustes das escolas: 

Depois de muito tempo sem aumento por causa da pandemia ou com pequenas correções, as escolas preparam reajustes entre 7% e 10%, em média, para o ano que vem, segundo pesquisas do setor. Dirigentes de escolas dizem que há espaço para negociação, mas alegam pressões de custos e argumentam que fizeram investimentos pesados em tecnologia para se adaptar ao ensino a distância.

  • Preço salgado no supermercado:

Tidos como os grandes vilões da inflação em 2020, os alimentos da cesta básica continuam em alta. Entre janeiro e outubro, o custo da cesta subiu em todas as capitais, segundo o Dieese, com aumentos de até 20%. O impacto maior recai nas famílias de menor renda, que gastam quase a totalidade do orçamento com alimentos. 

  • Renegociação de aluguéis:

Os aluguéis tinham tudo para uma explosão muito maior, porque o indexador usado nos contratos geralmente é o IGP-M, que acumula alta de quase 18% em 12 meses até novembro. No entanto, os reajustes ficaram em 6,17%  em 12 meses até outubro, até abaixo do IPCA cheio, de 10,67% no período. Sinal de que há espaço para negociação entre inquilinos e proprietários.

  • Juros do financiamento imobiliário:

Com inflação sob controle e juros em trajetória de queda, a Caixa lançou, em 2019, um financiamento imobiliário atrelado ao IPCA. A linha trazia condições melhores que as de outros financiamentos tradicionais. Mas, com o IPCA na casa dos 10%, esse crédito se transformou numa grande armadilha para quem o contratou. O resultado é que as concessões de financiamentos nessa modalidade praticamente desapareceram.

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Banco Central promove maior choque de juros em quase 20 anos para conter a inflação

Com o novo aumento previsto para a Selic, que deve ir a 9,25%, taxa vai acumular alta de 7,25 pontos em nove meses; mesmo assim, BC não deve cumprir metas de inflação estipuladas para 2021 e 2022

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 05h00
Atualizado 08 de dezembro de 2021 | 19h11

BRASÍLIA - Para combater uma inflação alta, persistente e disseminada, o Banco Central está promovendo o mais forte choque de juros em quase 20 anos, com a taxa Selic subindo ao patamar de 9,25% nesta quarta-feira, 8, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano. Em nove meses, o aumento acumulado soma 7,25 pontos porcentuais, do nível inicial de 2% - o mínimo histórico.  

A dose cavalar de juros em curto espaço de tempo só fica atrás nos últimos 20 anos do ciclo iniciado no fim de 2002, em meio à eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela oportunidade, a taxa Selic subiu 7,5 pontos em apenas três meses – de outubro a janeiro, com uma alta final de 1 ponto em fevereiro, para 26,50%.

Mesmo com os juros subindo “de elevador”, é provável que o Banco Central descumpra seu objetivo por dois anos seguidos, em 2021 e 2022, considerando a maioria das projeções de economistas ouvidos pela própria instituição para o boletim Focus. Inflação na casa dos dois dígitos promove uma bagunça na economia, prejudica a atividade e empobrece a população.

O "remédio amargo" com a alta de 1,5 ponto porcentual é a sétima elevação da taxa Selic neste ciclo de aperto monetário, que foi iniciado em março, e o nível mais alto desde setembro de 2017. O aumento do juro básico da economia se reflete em taxas bancárias mais elevadas, embora haja uma defasagem entre a decisão do BC e o encarecimento do crédito (entre seis meses e nove meses). A elevação da taxa de juros também influencia negativamente o consumo da população e os investimentos produtivos.

Uma combinação de ponto de partida muito baixo, certa demora do Banco Central para agir e surpresas inflacionárias e fiscais explicam o processo acelerado de alta de juros, na opinião de especialistas. “O primeiro ponto para explicar a rapidez (do aumento) é o ponto de partida, o fato que começamos com o juro, em retrospecto, baixo demais. Essa não era minha visão no início do ano. Mas o juro a 2% estava muito baixo, a inflação descolou e o BC teve que correr atrás do prejuízo”, avalia o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC.

Segundo Schwartsman, olhando de hoje, o BC esteve “atrás da curva” desde o início do processo de alta de juros, com a necessidade de ajustar a estratégia e a comunicação a cada novo Copom. Ele também argumenta que a piora fiscal provocou desancoragem de expectativas, dificultando o trabalho do BC. “Boa parte da desancoragem das expectativas de inflação deve ser explicada pelo fato de o fiscal estar indo para o ralo.”

Surpresa

Para a economista e sócia da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro, a inflação surpreendeu a todos, aos BCs daqui e de lá de fora, além do mercado. Mas o caso brasileiro é mais grave, porque foi potencializado pelo drible nas regras fiscais, como o teto de gastos e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que aumenta o risco país e gera maior desvalorização do real.“O risco de insustentabilidade fiscal exige uma atitude mais dura do BC, porque ele está sozinho. O BC americano também tem mudado o discurso. Mas nosso juro está subindo de elevador pelos problemas domésticos”, diz. 

Na última reunião do Copom, em outubro, o BC mudou o “plano de voo”, de alta da Selic de 1,0 para de 1,50 ponto porcentual, diante de novas surpresas inflacionárias e das manobras patrocinadas pelo governo na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, para abrir espaço para mais gastos em 2022, ano eleitoral.

“O BC ficou inicialmente atrás da curva com as sinalizações tímidas, como a de normalização parcial. Mas, mais recentemente, foi a mudança abrupta do cenário fiscal que alterou totalmente o cenário para o BC”, concorda o economista-chefe da ASA Investments, Gustavo Ribeiro.

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Fábio Alves: Não há como o Banco Central trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia

Para parte do mercado, um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 04h00

Depois da leve queda no PIB do terceiro trimestre e um recuo da produção industrial em outubro, enquanto o mercado esperava aumento, uma parcela de analistas e investidores passou a criticar com mais veemência o ritmo do aperto monetário do Banco Central.

O argumento dessa corrente do mercado é de que um ciclo mais duro de alta de juros poderá levar a economia a uma recessão no ano que vem. Mais ainda: que a desaceleração da atividade econômica já conseguiria fazer parte do trabalho da política monetária para arrefecer a inflação.

Só para lembrar: o PIB do terceiro trimestre caiu 0,1% ante o segundo trimestre, jogando a economia em recessão técnica. Isso seria já suficiente para o BC rever a magnitude do aperto monetário em curso?

A resposta é não. Apesar do resultado negativo, a composição do PIB do terceiro trimestre ainda mostra fontes de pressão à inflação, com o crescimento forte dos setores de consumo, de serviços e de gastos do governo em julho, agosto e setembro.

Um exemplo foram os chamados “outros serviços”, que englobam atividades como bares, restaurantes, hotéis, educação privada, saúde e serviços de beleza, e tiveram alta de 4,4% no terceiro trimestre em comparação com os três meses anteriores.

São os setores mais sensíveis à política monetária. E o esforço que o BC deveria estar fazendo é evitar que os preços dos bens não comercializáveis, como os do setor de serviços, subam tanto em 2022 para acomodar uma desaceleração dos preços que sofreram um choque com a pandemia.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o mercado projeta inflação de 10,18% neste ano e de 5,02% em 2022, um estouro do teto da meta por dois anos consecutivos. Para a decisão do Copom hoje, a esmagadora maioria dos analistas espera alta de 1,5 ponto porcentual da taxa Selic, para 9,25%.

Mesmo com a economia desacelerando, a inflação acumulada em 12 meses seguirá em dois dígitos até, ao menos, março do ano que vem. Isso porque ainda ocorrem repasses da inflação passada ao redor de 8%, 9%, como mostram os dissídios salariais monitorados pela Fipe. Ou seja, a velocidade de queda da inflação devido à inércia poderá ser lenta.

Uma das maneiras que o BC poderá quebrar esse processo seria tentar valorizar o câmbio via diferencial de juros maior, pois, com a Selic a 7,75%, o dólar segue ao redor de R$ 5,60. O ruído político e a piora na percepção do risco fiscal tornam esse trabalho mais difícil. Mas, infelizmente, não há como trazer a inflação para baixo sem desacelerar a economia. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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