Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Alta do diesel provoca efeitos negativos em toda a economia global

Escalada do preço força alta da inflação e as cadeias de suprimentos das fábricas ao varejo

Jack Ewing e Clifford Krauss, The New York Times

04 de abril de 2022 | 10h00

Os agricultores estão gastando mais para manter os tratores e as colheitadeiras funcionando. As empresas de transporte marítimo e rodoviário de cargas estão repassando os custos maiores para os varejistas, que estão começando a repassá-los aos compradores. E os governos locais estão pagando centenas de milhares de dólares a mais para abastecer os ônibus escolares. As despesas do setor de construção também podem aumentar em breve.

O motivo é o aumento repentino no preço do diesel, que está prejudicando silenciosamente não só a economia americana como a mundial, forçando a alta da inflação e pressionando as cadeias de suprimentos das fábricas ao varejo. É mais um efeito da guerra na Ucrânia. A Rússia é um grande exportador de diesel e de petróleo bruto, a partir do qual o diesel é produzido nas refinarias.

Os donos de automóveis nos Estados Unidos ficaram chocados com os preços da gasolina a mais de US$ 4 o galão, mas houve um aumento ainda maior no preço do diesel, que têm um papel fundamental na economia global, pois abastece tanto diferentes tipos de veículos como equipamentos. Um galão de diesel está sendo vendido por uma média de US$ 5,19 nos EUA, segundo dados do governo, ante US$ 3,61 em janeiro. Na Alemanha, o preço no varejo disparou para € 2,15 o litro (ou US$ 9,10 o galão), ele custava € 1,66 no final de fevereiro, segundo o Automóvel Clube da Alemanha (ADAC, na sigla original), a versão do país da Associação Automobilística Americana (AAA, na sigla em inglês).

Os postos de combustíveis na Argentina começaram a racionar diesel, colocando em risco um dos principais produtores agrícolas do mundo, e analistas de energia alertam que o mesmo pode acontecer em breve na Europa, onde algumas empresas relatam estar gastando duas vezes mais com diesel agora do que no ano passado.

“Não é apenas uma marca histórica, mas chegamos até ela em um ritmo histórico”, disse Mac Pinkerton, chefe do departamento de transporte de cargas na América do Norte da C.H. Robinson, empresa que oferece serviços de logística para cadeias de suprimentos de vários setores.  “Nós nunca passamos por algo semelhante a isso antes.”

A disparada acentuada dos preços está colocando uma pressão imensa nas empresas de transporte rodoviário, principalmente nas menores, que já estavam sofrendo com a escassez de motoristas e de peças de reposição. Muitas delas podem repassar o aumento dos custos com o combustível para seus clientes somente depois de algumas semanas ou meses.

Mais cedo ou mais tarde, os consumidores sentirão o efeito dos preços mais altos em todos os tipos de mercadorias. Embora seja difícil de mensurar, a inflação será mais perceptível em produtos caros, como automóveis ou eletrodomésticos, segundo os economistas.

“Na verdade, tudo que compramos pela internet ou em uma loja passa por um caminhão em algum momento”, disse Bob Costello, economista-chefe da Associação Americana de Transporte Rodoviário (ATA, na sigla em inglês).

Os fabricantes também usam bastante o diesel, levando a preços mais altos para seus produtos. O preço dos alimentos aumentará porque os equipamentos agrícolas normalmente funcionam a base diesel.

“Não se trata apenas do combustível que usamos em picapes, tratores, colheitadeiras”, disse Chris Edgington, produtor de milho de Iowa. “Também há o custo de transportar esses produtos para a fazenda e para outros lugares.”

No início da pandemia, o preço do diesel caiu vertiginosamente à medida que a economia global desacelerou, as fábricas interromperam suas atividades e as lojas fecharam. Mas desde o começo de 2021, houve uma nítida recuperação conforme o tráfego de caminhões e trens foi retomado. Os preços, que aumentaram quase sem parar no ano passado, ficaram ainda maiores em janeiro, quando a Rússia reuniu tropas perto da Ucrânia e, depois, invadiu o país. Os baixos estoques do combustível, sobretudo na Europa, aumentaram as pressões sobre os preços.

“O diesel é o produto mais suscetível e cíclico da indústria do petróleo”, disse Hendrik Mahlkow, pesquisador do Instituto Kiel para a Economia Mundial, na Alemanha, que estudou os preços das commodities.  “A alta dos preços será distribuída por toda a cadeia de valor.”

As refinarias, que transformam petróleo bruto em combustíveis usados em carros e caminhões, tentaram ficar em dia com a demanda em ambos os lados do Atlântico nos últimos meses. Mas elas não foram capazes de produzir mais diesel, gasolina e combustível de aviação com rapidez suficiente. Isso se deve em parte porque refinarias foram fechadas na Europa e na América do Norte nos últimos anos, e a maior parte dos combustíveis do mundo agora estão sendo refinados na Ásia e no Oriente Médio.

Desde janeiro de 2019, a capacidade da refinaria caiu 5%, nos EUA, e 6% na Europa, segundo a Turner, Mason & Co., empresa que presta serviços de consultoria para o setor.

A Europa está particularmente vulnerável porque depende da Rússia para aproximadamente 10% de seu diesel. A própria produção de diesel da Europa também depende da Rússia, que é um grande fornecedor de petróleo bruto para o continente. Alguns analistas dizem que a Europa talvez tenha que começar a racionar diesel a partir deste mês, a menos que a escassez diminua.

Os preços do diesel e a dependência da Alemanha da energia russa estavam entre os fatores que levaram o Conselho de Especialistas Econômicos da Alemanha, na quarta-feira, a reduzir sua projeção de crescimento para 2022 em mais da metade, para 1,8%.

O diesel russo continua chegando à Europa mesmo após a invasão da Ucrânia em fevereiro, mas comerciantes, bancos, seguradoras e transportadoras estão se afastando cada vez mais do diesel, do petróleo e de outros produtos exportados pelo país.

Várias petrolíferas europeias anunciaram que estão deixando a Rússia. A TotalEnergies, gigante petrolífera francesa, disse em 22 de março que deixaria de comprar diesel e petróleo russos até o final do ano.

O mercado de petróleo e diesel é global, e as empresas geralmente podem encontrar outra fonte se seu principal fornecedor não puder atendê-las. No entanto, nenhuma petrolífera ou país pode compensar de forma rápida a perda da energia russa.

A Arábia Saudita, por exemplo, não aumentou as exportações de diesel porque uma de suas maiores refinarias está passando por manutenção. O país e seus aliados na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep+) também se recusaram a aumentar a produção de petróleo bruto porque estão contentes com a alta dos preços do petróleo. A Rússia pertence ao grupo e tem grande influência sobre os demais integrantes.

Christine Hemmel é gerente de uma empresa de transporte rodoviário em Ober-Ramstadt, na Alemanha, que é comandada pela sua família há quatro gerações. O negócio familiar enfrentou quase todos os desafios que as transportadoras de médio porte enfrentam desde o início da pandemia.

Os preços dos pneus e das peças de reposição dobraram muitas vezes. O preço da madeira usada para paletes durante o frete disparou. E tem sido difícil encontrar motoristas experientes. O AdBlue, um fluido usado em caminhões para atender às regulamentações de emissões, está custando quatro vezes mais do que costumava e às vezes fica indisponível, disse ela.

A empresa de Christine, a Spedition Schanz, que tem 35 caminhões, está pagando o dobro pelo diesel em comparação com 2021, disse ela. Isso significa € 252 mil a mais (ou US$ 280 mil) em despesas a cada três meses. De acordo com os contratos com clientes, a empresa pode repassar o aumento, mas só depois de três meses.

“É insano como os preços estão disparando”, disse Christine na terça-feira. Ela espera que eles se estabilizem, afirmou, mas “não faz ideia de quando isso vá acontecer”.

Em algum momento, ela disse, “repassaremos o aumento para nossos clientes, e eles vão repassar para os consumidores”.

As empresas europeias de energia estão se esforçando para encontrar fontes alternativas de petróleo, conforme param de comprar da Rússia. Entre os desafios está o fato de o petróleo do Golfo Pérsico tender a apresentar um alto teor de enxofre. Algumas refinarias europeias não podem processar esse petróleo e outras precisam fazer adaptações caras para lidar com ele.

Além disso, o preço do gás natural subiu muito, aumentando os custos da eletricidade. As refinarias também usam gás natural para produzir hidrogênio, que, por sua vez, é usado para remover o enxofre do diesel para reduzir a poluição do ar. Na quarta-feira, o governo alemão começou a se preparar para racionar gás, caso a escassez se agrave.

“Trata-se de apenas um mercado para o preço do diesel”, disse Richard Joswick, chefe de análise global de petróleo da S&P Global Platts, empresa que fornece informações a respeito do setor de energia. “Mas subir o preço dele na Europa faz o diesel aumentar em todos os lugares.”

Joswick alertou que, à proporção que as refinarias se apressassem para produzir mais diesel, inevitavelmente elas produziriam menos gasolina e outros produtos, o que poderia aumentar os preços da energia em todos os setores.

As refinarias dos EUA exportaram mais diesel para a Europa de Nova York e da Costa do Golfo nos últimos meses. Isso não é comum, pois essas refinarias costumam vender a maior parte de seus produtos no mercado interno durante o inverno, quando a demanda por diesel tende a ser maior que no verão.

“Os europeus produzem o máximo que podem, mas, mesmo assim, não é suficiente”, disse Debnil Chowdhury, vice-presidente e chefe de refino das Américas da IHS Markit, empresa de pesquisa subsidiária da S&P Global. “Por isso os EUA precisam preencher essa lacuna.”

As exportações de diesel dos EUA para a Europa, por sua vez, ajudaram a elevar os preços no mercado interno, ao reduzir a oferta. Isso pode se tornar um problema maior. As reservas de diesel no país vêm caindo ao longo dos últimos 18 meses e estão em seus níveis mais baixos em oito anos, de acordo com o Departamento de Energia dos EUA.

“Há algum temor” no mercado de diesel neste momento, disse Linda Salinas, vice-presidente de operações da Texmark Chemicals, empresa do Texas que converte diesel não destilado importado – produzido com óleo de cozinha usado e resíduos – em combustível renovável para aviação. “Com que frequência temos uma grande potência como a Rússia invadindo outro país e provocando um impacto global como esse? Todos os fluxos do combustível estão conectados.”/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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