Alta do calote deve ser limitada pelo mercado de trabalho

Thaís Marzola Zara

, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

No ano passado e início deste ano, o crédito à pessoa física experimentou um crescimento exuberante. Ainda que tenha sido consequência da expansão do número de tomadores, não do aumento do endividamento médio de cada um, acabou por abranger tomadores com maior risco de crédito.

Nossas estimativas, construídas a partir de dados do Banco Central, mostram que a média de comprometimento da renda ficou praticamente estável (até recuou um pouco) no último ano e meio. A extensão do prazo contribuiu para isso, bem como a taxa de juros para o tomador, que apenas recentemente começou a reagir à política monetária mais restritiva, mas que ainda encontra-se em patamar historicamente baixo.

Exercícios para a trajetória futura desse comprometimento, considerando prazo constante (ao invés de crescente) e manutenção das taxas de expansão do crédito e da massa salarial, sinalizam um aumento razoável do comprometimento da renda.

Ou seja, o crédito tende a desacelerar e a inadimplência maior é apenas um dos desdobramentos desse movimento iniciado pela política monetária mais restritiva, com taxas de juros maiores, prazos menores e maior seletividade na concessão do crédito. Mas, tudo isso ocorre de forma bastante gradual, amenizado pelo mercado de trabalho ainda muito aquecido. A inadimplência tenderia a subir muito mais rapidamente se a taxa de desemprego fosse elevada e a massa salarial estivesse crescendo pouco. Não é o caso neste momento.

Ratificando esta percepção, no início deste ano - meses de março e abril - a falta de pontualidade no pagamento entre 15 e 90 dias disparou. Esse movimento ocorre nesses meses em todos os anos (há um componente sazonal), devido à concentração elevada de pagamentos de impostos, contas de Natal, matrículas e material escolares. Mas há mesmo uma tendência de alta da inadimplência nos próximos meses, ainda que moderada pelo mercado de trabalho.

Parece que o Banco Central finalmente começa a retirar a cerveja no auge da festa; todavia, para os que preferem olhar o copo meio cheio, há ainda licor disponível na mesa do cafezinho.

ECONOMISTA-CHEFE DA ROSENBERG CONSULTORES ASSOCIADOS E MESTRE EM TEORIA ECONÔMICA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)

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