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Alta do desemprego e queda na renda podem acentuar retração do PIB, diz Barclays

Mercado de trabalho brasileiro deve seguir se deteriorando durante todo o ano, o que poderá impactar em uma retração do PIB maior do que a contração de 1,1% projetada pelo banco britânico para 2015

Igor Gadelha, Carla Araújo, O Estado de S. Paulo

28 de abril de 2015 | 10h40

O aumento da taxa de desemprego apurada pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil, acompanhado da retração da renda real dos trabalhadores, confirma a percepção do Barclays de que o mercado de trabalho brasileiro deve seguir se deteriorando durante todo o ano, o que poderá impactar em uma retração do PIB maior do que a contração de -1,1% projetada pelo banco britânico para 2015. A avaliação consta em relatório assinado pelo economista para Brasil da instituição, Bruno Rovai.


Em março, a taxa desemprego subiu para 6,2%, ante 5,9% em fevereiro e 5% em igual mês de 2014, enquanto o rendimento médio real dos trabalhadores recuou 2,8% ante fevereiro e 3% na comparação com março do ano passado. "Continuamos a perceber os riscos de que, se o mercado de trabalho continuar a se deteriorar durante todo o ano e o rendimento disponível cair, isso deve impor mais pressão de queda sobre as perspectivas de consumo das famílias", afirma Rovai no relatório.

No documento, o economista ressalta que o aumento do desemprego em março foi causado principalmente pelo crescimento da população desocupada e pela redução dos inativos, sugerindo que um maior número de trabalhadores resolveu voltar a procurar empregos no País. "As implicações para o crescimento são a de que a recessão para o Brasil este ano pode ser mais profunda do que nossas expectativas atuais, de -1,1%, e que o consumo das famílias deverá se contrair mais do que nossa previsão de -0,1%", destaca o Barclays.

Economista-chefe da Rosenberg Associados, Thais Zara reforça que o aumento da taxa de desemprego veio em linha com uma deterioração do mercado de trabalho já esperada. Ela destacou ainda que a queda da renda dos trabalhadores é um "sinal" que faltava para mostrar os efeitos da recessão da economia no mercado de trabalho.

Segundo Thaís, o recuo do rendimento real dos trabalhadores poderá ter um pequeno efeito na inflação de preços livres ainda neste ano, mas, como a alta de preços administrados é grande, não terá impacto muito forte na taxa global. Ela prevê que "dificilmente" a Pesquisa Mensal de Emprego vai mostrar alguma recuperação em abril, mês para o qual a Rosenberg ainda não tem projeção fechada.

Ajuste fiscal. A queda na renda dos trabalhadores em março apontada pelo IBGE já é um efeito do ajuste fiscal que está sendo implementado pelo governo, na visão do economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito. "Já conseguimos com isso ver os efeitos desejados do ajuste. Todo mundo queria o ajuste: está aí o ajuste", defende.

Segundo o economista, já é esperado também que parte do ajuste seja feito com o aumento do desemprego. Ele destaca ainda que com o governo diminuindo ou redimensionando alguns programas, como o Fies, a tendência é que mais jovens deixem de estudar e procurem emprego. "Isso deve aumentar a População Economicamente Ativa (PEA) e consequentemente elevar a taxa de desemprego", afirmou.

Na avaliação de Perfeito, a situação de março ainda deve ser o início de um aumento no desemprego e da queda da renda. "Esse efeito ainda não começou de fato, vai ser ainda mais forte até o final deste ano", afirmou. "Imagino o desemprego chegando a 7% e 7,5% no final do ano", avaliou. 

Para Perfeito, o governo está "determinado" em deixar o a taxa de desemprego subir pelo menos em 2015. "O remédio é amargo", reforçou.

Selic. O Barclays espera que o Banco Central aumente a Selic em 0,50 ponto porcentual, para 13,25% ao ano, na reunião que acaba nesta quarta-feira, em consonância com a inflação maior do que esperado e com o discurso razoavelmente "hawkish" adotado recentemente por dirigentes do BC. Para o Barclays, o BC só deve encerrar o ciclo de alta de juros em junho, quando a perspectiva de PIB fraco, combinada com inflação relativamente estável e melhor superávit primário, deverá pesar mais sobre a decisão da autoridade monetária.

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