Alta do dólar pode mudar expectativa para inflação

O repique da cotação do dólar, que atingiu ontem o nível de R$ 2,08 na ponta de venda, acende a luz amarela em relação às expectativas para inflação. Economistas dizem que ainda é cedo para falar em mudança de previsão para a inflação do ano, já que o câmbio acompanha um momento de turbulência no cenário externo que pode ter uma melhora em breve. Mas admitem que há riscos da cotação da moeda norte-americana acomodar-se em níveis mais altos do que os previstos no início do ano e contagiar, assim, os índices de preço, ainda mais em um momento em que os resultados das pesquisas de preços têm gerado alguma surpresa. Ontem, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), utilizado no regime de metas de inflação, referente ao mês de fevereiro ficou em 0,46%, enquanto que as previsões do mercado variavam entre 0,30% e 0,40%. Em setembro do ano passado, Abate estabeleceu como previsão para o final do ano de 2001 um dólar na casa de R$ 2,03, que deveria apresentar um movimento homogêneo ao longo do ano. Esse nível de dólar já foi superado no dia 21 de fevereiro, quando a moeda bateu a casa de R$ 2,0310. Desde então, a moeda só faz subir. "É difícil saber se os fatores que pressionam o câmbio neste momento - as incertezas em relação à Argentina e aos EUA - permanecerão. Mas, sem dúvida, esse nível de dólar reduz bastante as perspectivas de uma queda de preço dos combustíveis o que, evidentemente, atingiria a inflação", afirma Abate. Ele lembra que, considerando a média do dólar no ano até a sexta-feira passada (09/03) e o preço médio do barril de petróleo, haveria um corte de 2,95% no preço dos combustíveis, enquanto que as expectativas eram de que poderia haver uma queda entre 5,5% e 6%. Se o dólar mantiver o nível atual, então são ainda menores as chances de uma queda nesses preços que, segundo a própria ata da última reunião do Copom, foram considerados para que o juro básico da economia permanecesse em 15,25%. Para o economista do Banco BBV, Octávio de Barros, esse movimento do dólar, gerado pelo nervosismo no mercado externo, pode provocar duas reações por parte do Banco Central: intervenção no mercado cambial, seja via venda de moeda, seja via oferta de títulos cambiais; ou manutenção da taxa Selic inalterada por meses seguidos, como ocorreu no ano passado (o Copom manteve a Selic em 16,5% entre os dias 19/7 e 20/12), momento de pressão sobre o câmbio. Barros previa para este ano um dólar médio de R$ 2,00 e, no final do ano, uma cotação de R$ 2,10. Considerando esses dados, seria possível pensar em um IPCA de 4,4% no ano. "O que preocupa não são os repiques, mas sim o fato de o dólar estar se acomodando em um patamar mais elevado do que o previsto inicialmente", diz Barros, que prefere aguardar para falar em revisão da inflação para o ano.

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