ESG

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Alta do dólar pode ser gota d’água da meta de inflação

Mantido o stress nos mercados, estimativas do impacto adicional no IPCA este ano vão de 0,15 a 0,5 ponto porcentual, ou até mais 

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo,

24 de setembro de 2011 | 18h55

A disparada do dólar pode ser a gota d’água para que a inflação em 2011 estoure o teto do sistema de metas, de 6,5%. Segundo diversos analistas, o impacto da alta do câmbio na inflação acontece de forma rápida, em um ou dois trimestres.

Tudo depende do que vai acontecer nos próximos meses com a cotação do dólar e das commodities. Mas, se o quadro de estresse nos mercados se mantiver, as estimativas do impacto adicional no IPCA ainda em 2011 vão de 0,15 a 0,5 ponto porcentual, ou mesmo mais.

Hoje, a média da expectativa de mercado do IPCA é de 6,46%. A maior parte destas estimativas provavelmente leva em conta cotação média do dólar até o fim do ano bem abaixo das ocorridas nos últimos dias. Assim, mesmo impactos adicionais muito modestos podem levar ao estouro do teto da meta. Um efeito mais forte poderia levar o IPCA de 2011 a fechar próximo a 7%.

O impacto inflacionário da alta do dólar se dá principalmente pelo preço das commodities alimentares e minerais, que são insumos de diversas indústrias. Como ocorreu na crise de 2008 e 2009, o câmbio e as commodities tendem a se mover em direções opostas, o que suaviza o impulso inflacionário da disparada do dólar. Com aumento da aversão ao risco, o câmbio sobe. Mas o agravamento da crise global aponta para a redução da demanda de commodities, e seus preços caem.

Até agora, o dólar correu na frente, e a cotação das commodities em real subiu significativamente desde o início de agosto. A média do índice de commodities CRB em reais de setembro está 6,4% acima da média de julho e agosto. Comparando-se o ponto recente de maior baixa, em 8 de agosto, e o CRB em reais da última sexta-feira, o salto é maior, e vai a 10,8%.

Commodities

Segundo os cálculos da economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendências, o impacto da alta das commodities em real na inflação, supondo-se a permanência de níveis próximos ao da sexta-feira nos próximos meses, é de 0,48 ponto porcentual. Deste total, 0,35 ocorreria nos três meses de setembro a novembro, e o resto nos trimestres em diante.

Como a projeção da Tendências para o IPCA de 2011 já está em 6,6%, sem contar o impulso inflacionário adicional do câmbio, a estimativa de Alessandra indica que o índice da meta poderia chegar próximo de 7%. Vai depender, claro, de o dólar não ceder significativamente e de as commodities não caírem muito. "Tudo depende da evolução do câmbio e das commodities, mas pode ser uma pancada."

Já o economista Fernando Rocha, sócio da gestora JGP, fez estimativas do impacto da alta do dólar com a manutenção da cotação em torno de R$ 1,80, e chegou a 0,15 ponto porcentual. Assim, a projeção da JGP de 6,55% em 2010 subiria para 6,7%.

Ele nota que um fator muito importante é se acontece ou não o repasse da alta do dólar para os preços dos combustíveis. Se o mercado fosse livre, haveria uma alta da gasolina e outros derivados, mas no Brasil o governo tem o poder de determinar os preços, por meio da estatal Petrobrás.

"Há um efeito muito forte dos combustíveis na inflação, tanto direto quanto por meio das tarifas de ônibus", diz Rocha.

Outra questão importante é o tamanho da crise internacional. Se ela atingir as dimensões de 2008 e 2009, o efeito no Brasil poderia ser deflacionário, mesmo com a disparada do câmbio.

 

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