Michael Reynolds|EFE
Michael Reynolds|EFE

Alta do juro nos EUA volta a ser incógnita

Dados ruins de emprego e votação do ‘Brexit’ podem fazer Fed adiar aumento

Altamiro Silva Júnior, correspondente, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2016 | 22h10

NOVA YORK - O decepcionante relatório oficial de emprego de maio dos Estados Unidos e fatores externos, como o “Brexit”, como vem sendo chamada a possibilidade de o Reino Unido deixar a União Europeia (UE), devem fazer o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) a adiar a alta de juros na reunião de junho, mas julho ainda permanece uma possibilidade, avaliam economistas em Wall Street consultados pelo ‘Broadcast’, serviço em tempo real da ‘Agência Estado’.

Os dados do relatório de emprego (payroll), divulgados ontem, foram considerados fracos e decepcionantes pela maioria dos analistas, não apenas pela criação de apenas 38 mil vagas em maio, o menor número desde 2010, mas também pela revisão para baixo nos dados de abril e março.

A alta dos salários mostrou desaceleração e mesmo com a queda maior do que o esperado, a taxa de desemprego recuou, de 5,0% para 4,7%, por razões “erradas”, afirmam os economistas. Em vez de baixar por conta de mais gente empregada, a taxa caiu porque as pessoas desistiram de procurar uma vaga. Ao todo, 458 mil pessoas abandonaram o mercado de trabalho em maio e deixaram de ser contabilizadas nas estatísticas de desempregados.

Além do fraco relatório de emprego, os economistas ressaltam que o Brexit deve ser um fator a mais para adiar a decisão do Fed sobre os juros. O presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, falou ontem em evento em Londres que a votação, que ocorre uma semana após a reunião de política monetária dos EUA, dias 14 e 15, é um fator de incerteza. Na quinta-feira, o diretor do BC, Daniel Tarullo, também fez declaração semelhante, afirmando que o evento precisa ser considerado nas conversas da reunião do Fed.

“A desaceleração pronunciada na criação de emprego é provavelmente suficiente para o Fed, que é dependente de indicadores, manter os juros este mês. Com a incerteza adicional que envolve o Brexit, um aumento de juros agora permanece fora da mesa”, afirma o economista do TD Bank, James Marple. Os economistas do Wells Fargo, John Silvia e Sarah House, também descartam uma elevação agora, por conta dos sinais mostrados no payroll de que a desaceleração da atividade econômica vista no primeiro trimestre persiste no segundo período do ano.

Para a economista sênior do BMO Capital Markets, Jennifer Lee, um dos impactos imediatos do Brexit nos EUA seria por meio de maior volatilidade no mercado financeiro, por conta das incertezas em relação às consequências da votação no Reino Unido. Nos dias em que antecederem a votação, dia 23, um movimento de fuga do risco pode ocorrer em Wall Street, ligando o tom de cautela no Fed, que tem estado alerta para riscos externos, diz ela. A avaliação do BMO é que se o mercado de trabalho der sinais de melhora em junho e o Reino Unido seguir na UE, uma alta de juros na reunião de julho é possível.

Já a economista do Bank of America Merrill Lynch, Michelle Meyer, avalia em um relatório a clientes nesta sexta-feira que o mais provável é um aumento de juros em setembro, embora julho ainda permaneça uma possibilidade. Para ela as chances de uma alta junho estão fora da mesa. A economista destaca que as apostas dos investidores nos futuros da Bolsa de Chicago atribuem hoje probabilidade de apenas 4% de elevação agora e de 32% em julho, ambas menores do que antes da divulgação do payroll.

Após os dados do payroll, as atenções se voltam agora para um discurso que a presidente do Fed, Janet Yellen, fará na segunda-feira na Filadélfia. A dirigente disse na semana passada que uma alta de juros poderia ocorrer “nos próximos meses”, mas não comentou, por exemplo, a influência de fatores externos como o Brexit na decisão do Fed. Para os economistas, será o evento mais importante antes da reunião dos dirigentes este mês, que já na terça-feira, entram em período de silêncio.

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