''Alta do juro vai valorizar o real''

Professor da Universidade Princeton diz que ainda não está convencido da necessidade de o BC elevar a taxa Selic

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2008 | 00h00

A 134ª reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que começa hoje e termina amanhã, é uma das mais polêmicas de sua história. Embora o mercado financeiro dê como favas contadas uma alta de ao menos 0,25 ponto porcentual da taxa básica de juros (Selic) - que a levaria para 11,5% ao ano -, vários economistas avaliam que a decisão pode ser precipitada. Entre eles está José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Ele é cauteloso na análise - "o BC tem informações que eu não tenho" -, mas contesta a provável escolha do Copom. "Ainda não estou convencido de que precisamos de alta do juro." Scheinkman vem ao Brasil para uma curta visita esta semana. Chega na quarta-feira, participa de um evento do Ibmec São Paulo e da Máquina Finance PR na sexta-feira, e no fim de semana retorna para os Estados Unidos. O que o sr. pensa dessa polêmica sobre a taxa de juros?Evidentemente, o Banco Central dispõe de muito mais dados do que eu. Temos de lembrar também que, no sistema atual do País, a função do BC é manter a inflação dentro da meta. Mas o BC deveria se preocupar com duas outras coisas. Uma é o impacto fiscal da alta do juro, que eleva o custo da dívida e, portanto, cria uma pressão inflacionária no longo prazo. A outra é o impacto na taxa de câmbio. Uma alta do juro vai valorizar o real. Com base nas informações que o sr. dispõe, diria que elevar a taxa de juros seria pior para o País do que mantê-la no nível atual?O que eu posso dizer é que, hoje em dia, os países preocupados com a inflação têm mantido a taxa de juros em vez de aumentá-la. Os países menos preocupados com inflação têm cortado a taxa de juros. O BC tem se mostrado desconfortável com o nível da demanda, que se tem refletido na inflação e na redução do superávit comercial, via aumento das importações. O sr. também vê excesso de demanda na economia brasileira hoje?De novo, é muito difícil quem está de fora olhar isso. Em primeiro lugar, não temos necessidade de um superávit comercial que tivemos nesse período de construção de reservas. Não preocupa o fato de estarmos importando mais. O segundo ponto é que, de fato, a política monetária é o instrumento mais adequado para conter inflação. Ainda não estou convencido de que precisamos de alta de juros. Mas prefiro isso a medidas de restrição de crédito que chegaram a ser discutidas recentemente. O BC poderia esperar um pouco mais para subir o juro, então?Não sei qual é a informação que o BC tem. Daqui dos Estados Unidos, sentado no meu computador, é difícil dizer. Muitos economistas têm proposto a redução do gasto público como forma de diminuir a pressão inflacionária. O sr. concorda?Sou sempre a favor, porque o Brasil gasta muito e gasta mal. Uma proposta como a apresentada pelo ex-ministro (Antonio) Palocci e pelo ministro Paulo Bernardo, de controlar o crescimento dos gastos do governo, teria um impacto muito positivo na redução das pressões inflacionárias. O déficit em conta corrente pode desembocar em uma crise, como têm dito alguns analistas? É prematuro dizer isso. O Brasil tem uma quantidade de reservas muito boa e um mercado muito forte para seus produtos (caso dos bens agrícolas). Gostaria de ver o Brasil mais integrado ao mundo, exportando e importando mais. A crise financeira nos Estados Unidos já atingiu o fundo do poço?A grande tarefa que sobra agora é a reconstrução do sistema de crédito nos Estados Unidos. Uma economia como a americana não pode funcionar sem um sistema de crédito adequado. Os bancos comerciais nos EUA terão de reduzir a chamada alavancagem. Ou seja, vão ter de diminuir o tanto que têm de empréstimos em relação ao capital. Há, agora, dois caminhos. Um deles é conseguir mais capital para compensar as perdas até agora e, assim, manter o nível de empréstimos. O outro é reduzir os empréstimos. A segunda solução é muito pior para a economia como um todo. No fundo, creio que haverá uma mistura dos dois. Os EUA já estão em recessão?Há duas coisas diferentes. Uma é a recessão oficial, que é decretada pelo National Bureau of Economic Research (Bureau Nacional de Pesquisa Econômica, organização dedicada ao estudo da economia americana, que tem, entre outras incumbências, a de informar quando o país entra em recessão). O que se pode dizer é que houve uma queda grande da atividade americana. Alguns apostam que haverá recessão oficial, outros dizem que não. Isso é irrelevante. O importante é que essa queda da taxa de crescimento afeta o bem-estar nos EUA e chega numa hora em que o a situação fiscal está deteriorada. E o Brasil nesse cenário?Para o Brasil, é obviamente ruim o crescimento no mundo desacelerar. De outro lado, o Brasil melhorou muito. As condições para enfrentar uma crise são hoje muito melhores. O que não quer dizer que o Brasil não será afetado. Quanto mais longa for a queda no crescimento mundial, pior será para o País.

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