Alta dos alimentos é bomba-relógio, diz secretário da ONU

Segundo Ban Ki-Moon, recente inflação dos alimentos no mundo pode prejudicar segurança mundial

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

15 de abril de 2008 | 16h27

"A alta nos preços dos alimentos é uma bomba-relógio", afirmou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, nesta terça-feira, 15. Para ele, a crise pode ter impacto na segurança mundial. Apesar de se dizerem preocupados com o impacto da alta dos alimentos no mundo, os líderes dos países ricos deixam a ONU em crise. A entidade precisa de um orçamento adicional de US$ 500 milhões para alimentar a população dos países pobres. Mas só recebeu doações de US$ 14 milhões até agora. Se esses recursos não chegarem até junho, a ONU alerta que será obrigada a interromper a distribuição de alimentos para alguns países. A crise está demonstrando a fragilidade do sistema de distribuição de comida para os mais necessitados. No Camboja, a ONU conta que ficou sem seus fornecedores de alimentos usados para distribuir para as escolas do país. "Os contratos que tínhamos foram cancelados com os produtores que preferiram parar de vender para a ONU e exportar os produtos para ganhar mais dinheiro no mercado internacional. O resultado é que simplesmente ficamos sem alimentos", afirmou Christiane Berthiaume, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU. "Se não tivermos o dinheiro até o verão (do Hemisfério Norte), teremos de tomar decisões de romper o coração", afirmou Berthiaume. Ban Ki-Moon apelou em Nova York para que medidas urgentes e de longo prazo fossem tomadas para impedir a crise. "A crise alimentar se agrava", disse. "A comunidade internacional precisa tomar medidas para evitar que essa crise não tenha conseqüências políticas e de segurança", afirmou.  A Unicef também afirma estar preocupada. "Um dos riscos é que, com a alta nos preços dos alimentos, famílias decidam retirar seus filhos da escola e concentrar toda suas energias e para se alimentarem", afirmou a porta-voz da Unicef, Veronique Taveau. "Isso é tudo o que não queremos ver nesse momento. Estamos lutando para que a escolaridade aumente no mundo e a fome e os preços dos alimentos podem reverter essa situação", afirmou.  A ONU está preparando uma estratégia entre todas suas agências para evitar o pior. Algumas delas já deixaram de comprar milho e trocaram o produto por grãos mais baratos. Carne já foi abandonada e as refeições nas cantinas escolares tiveram seu valor nutricional reduzido.  Etanol Nesta terça, a ONU divulgou 15 medidas que o governo brasileiro deve tomar para corrigir as violações aos direitos humanos existentes no País, em especial no caso dos conflitos por terras. Entre elas, a entidade afirma que o Brasil precisa garantir que a expansão do etanol não vai afetar a segurança alimentar da população.  Na semana passada, o Brasil passou por seu primeiro exame sobre suas políticas de direitos humanos na ONU. Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos cobraram respostas a questões como a tortura e assassinatos pela polícia. Nesta terça, a ONU divulgou suas recomendações para que a situação do País possa ser modificada.  Entre as medidas está a garantia de que a expansão da cana para o biocombustível não significará uma perda de terras e riscos para a segurança alimentar. A proposta original era da Argélia e foi incorporada no documento final lançado nesta terça. Para vários governos e especialistas da ONU, poderia haver uma competição entre usineiros e produtores de alimentos que levariam a uma alta nos preços dos alimentos, afetando os direitos das camadas mais pobres de ter acesso â alimentação. Para a ONU, o Brasil deve investir mais em avaliar até que pontos os inúmeros planos criados durante o atual governo estão de fato dando resultados. Essas avaliações devem ocorrer em setores como condições de prisões, tortura sistema judicial, execuções sumárias pela polícia militar, trabalho escravo e infantil, tráfico de pessoas e corrupção. A ONU, baseada em uma proposta do Reino Unido, ainda quer uma avaliação do Brasil sobre a situação dos grupos indígenas e as disputas por terras no País. Gana e Nigéria também conseguiram que a ONU incluísse uma recomendação para que a reforma agrária no País fosse acelerada. Índios  A questão indígena também foi alvo de uma recomendação das Nações Unidas, que pede uma maior "consideração" do governo em relação às violações contra essas populações. Outras recomendações são para que o governo intensifique os esforços na redução de pobreza e lute contra o abuso de poder e excessivo uso da força pelas polícias. A pedido do governo da Alemanha, a ONU sugere que o Brasil tome medidas imediatas para melhorar a situação das prisões e que as recomendações feitas pelas Nações Unidas há dois anos sejam finalmente implementadas pelo País para evitar a tortura "generalizada". Para o governo do Uruguai, o Brasil poderia transformar muitas das prisões em centros de reabilitação.  O governo prometeu criar um indicador anual de direitos humanos no País e que confirmou que passaria a cumprir as recomendações da ONU, feitas há anos e ignoradas em Brasília.

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