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Alta dos custos pressiona montadoras

Disparada dos preços das matérias-primas provoca necessidade de repassar aumentos, mas indústria teme queda brusca nas vendas

Cleide Silva, Marcelo Rehder e Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

Assim como alimentos e produtos de limpeza, setores que têm como matérias-primas importantes aço, cobre, alumínio, plástico e borracha estão sendo pressionados a aceitar reajustes. No aço, há pedidos para aumentos médios de 10% e no alumínio, de 20%. "As pressões vêm de todos os lados e estamos numa sinuca de bico", diz o executivo de uma grande montadora. Quando o assunto é negociação, os executivos não gostam de se identificar nas reportagens.

Várias montadoras negociam com siderúrgicas aumentos do aço para abril, na casa dos 10%. Para o alumínio, os pedidos chegam a 20%, para serem aplicados já. Na visão de um fabricante de turbos, "trata-se de antecipação de uma suposta inflação futura".

O cenário de custos "está complicado", diz ele. Os fornecedores de peças não conseguem repassar aumentos às montadoras, que, por sua vez, não estão reajustando preços dos carros. "Se repassamos ao consumidor, derrubamos as vendas; se não repassamos, temos de cortar parte dos investimentos", diz outro representante de montadora.

Fábio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, ressalta que a pressão de alta das commodities é geral e, diante da dificuldade de repasse de preços, "há uma tendência de perda de rentabilidade da indústria em escala global", principalmente no caso dos produtos industrializados mais elaborados, como automóveis, máquinas e vestuário.

"É um fator de distorção sobre a estrutura de custos que não deve se sustentar por muito tempo sem que as empresas tenham de recorrer à majoração de preços, ainda que a concorrência seja grande", afirma Silveira.

Importação. Uma grande montadora reclama do aumento de vários produtos, entre os quais aço, alumínio e plásticos, e vê como alternativa a importação para evitar repasse ao consumidor. Ainda que o preço das commodities esteja subindo internacionalmente, é possível obter lá fora melhores preços, avalia a empresa. A explicação, segundo Silveira, é que os salários dos trabalhadores brasileiros estão subindo mais do que os de outros países, especialmente os asiáticos.

De janeiro de 2010 até janeiro deste ano, o preço dos carros novos aumentou, em média, 2,05%, segundo a Fipe. Já a inflação medida pelo IPCA foi de 6,79%. Há casos até de redução. A Fiat anunciou corte médio de 3,2% para vários modelos como Mille (de R$ 24 mil para R$ 23,2 mil) e Uno (de R$ 32,4 mil para R$ 31,6 mil).

O economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale, diz que o País está no início de um processo de desaceleração da economia, o que dificulta ainda mais os aumentos de preços. Para ele, o que tem impedido os reajustes, no caso dos bens de consumo duráveis, é a competição que ocorre com os importados, com câmbio favorável. Essa trava deve ser reforçada pela própria desaceleração da economia.

"Acho difícil ter um repasse de custos muito grande para os preços ao consumidor vindo da área de manufaturados, que compete com produtos de fora", diz Vale.

Demanda. O presidente da Namisa, subsidiária de mineração da CSN, Jayme Nicolato Correa, diz que não há perspectiva de redução do preço das commodities, por causa da demanda chinesa. "O mundo vive há vários anos um déficit de minério de ferro, o que levou a tonelada para um patamar de US$ 170."

"Os chineses importam 70% da produção mundial de minério de ferro. Precisam de 45% da produção mundial de aço. É uma questão de oferta e demanda. Esse preço é internacional e vai continuar assim", diz Correa.

A CSN e a ArcelorMittal informam que não se pronunciam sobre política de preços. A Usiminas e a Gerdau alegam que estão em período de silêncio por causa da divulgação dos resultados de 2010, na próxima semana.

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