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Robson Fernandes/Estadão
O aumento do custo pode prejudicar andamento de projetos de infraestrutura Robson Fernandes/Estadão

Alta dos preços de materiais pode levar à paralisação de obras públicas; leia análise

A falta de insumos de construção e o aumento dos custos colocam em risco os contratos em projetos de infraestrutura do poder público

Ruyter Kepler Thuin*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 05h00

No final de 2019, o mundo foi afrontado com o maior desafio do século 21; o surgimento da covid-19. No Brasil, a proliferação do vírus começou a ocorrer a partir de fevereiro de 2020 e a grande maioria dos governos estaduais decretou a paralisação total das atividades não essenciais, incluindo comércio e indústria, como estratégia de combate à pandemia. 

No caso da construção civil, o desabastecimento de insumos provocado pela paralisação das indústrias, o inesperado incremento da demanda por serviços proporcionado por reformas nas residências e o respectivo impacto no varejo, a aceleração do ritmo de vendas de imóveis, que já vinha em alta no decorrer do ano de 2019, o aumento exponencial nos preços das commodities no mercado internacional, especialmente, aço, resina para produção de PVC, cobre e alumínio, provocado pela explosão mundial de seu consumo, tornaram-se ingredientes perfeitos para extraordinários e sucessivos aumentos nos preços dos insumos de toda a cadeia produtiva das obras de engenharia. De tal forma que nem os índices setoriais IGP-M e Sinapi conseguiram captar os reajustes  na velocidade que ocorriam, situação que persiste até o presente momento.

O reajuste dos preços dos insumos entre fevereiro de 2020 e março de 2021 chegou a ultrapassar a marca dos 100% em alguns casos. O somatório dos efeitos provocados pelo desabastecimento e aumento excessivo no preço de insumos, fato nunca antes ocorrido, afeta de maneira grave os contratos públicos firmados anteriormente à pandemia, bem como os que possuem propostas formadas no seu decorrer, mormente pelo fato de que o reajustamento contratual se dá apenas 12 meses após a apresentação da proposta, o que, na atual conjuntura de imprevisibilidade, torna o mecanismo ineficaz no restabelecimento do equilíbrio dos contratos. 

Urge a tomada de ações concretas visando à revisão e reequilíbrio dos contratos, sob pena de que ocorram danos irreparáveis às empresas construtoras, com maiores efeitos nas micro e pequenas, e, consequentemente, paralisações de obras em todo o País.

Recomendamos que haja atualização dos orçamentos das obras, levando-se em conta as especificidades de cada uma, já que a adoção de índices setoriais tem grande capacidade de distorcer a realidade, pois são indicadores genéricos e não retratam, eventualmente, o impacto que determinado grupo de insumos tem sobre um tipo determinado de obra. 

Por fim, é imperioso salientar que no Brasil, levantamento feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou a existência de 14 mil obras paralisadas já antes da ocorrência da pandemia. Cabe ao poder público, em trabalho conjunto com o setor privado, envidar esforços para que este cenário não piore ainda mais. 

* ENGENHEIRO CIVIL, VICE-PRESIDENTE DE OBRAS E INFRAESTRUTURA DO SINDUSCON-DF

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Aumento do INCC prejudica quem comprou imóvel na planta; saiba o que fazer

Índice de preços da construção civil, usado para reajustar saldo devedor de apartamentos e casas, acumula alta de 17,34% em 12 meses

Heloísa Scognamiglio, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 05h00

O forte aumento de preços dos materiais de construção, além de prejudicar quem está reformando ou construindo, também afeta quem financiou a compra de um imóvel na planta. Nesses casos, o saldo devedor do financiamento é em geral reajustado com base no Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela FGV - que acumula alta de 17,34% em 12 meses até junho.

“Os aumentos impactam diretamente quem está financiando essa parte da construção do imóvel na planta com a construtora ou incorporadora. Porque o índice que indexa essas parcelas é um índice setorial”, diz Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). “Há alguns desses índices, sendo que o mais praticado atualmente é o INCC. Mas, seja o índice que for, todos vão estar refletindo uma conjuntura de elevação de custos e não é um aumento trivial, falamos de aumentos superiores à própria inflação.” 

Basilio Jafet, presidente do Secovi-SP, explica que o INCC incide sobre o valor do saldo devedor, ou seja, sobre o valor que o comprador ainda não pagou. “O saldo devedor é reajustado pelo índice e então dividido entre as parcelas restantes, por isso a prestação vai sofrer essa variação”, diz. Segundo ele, nos casos em que o comprador assina um financiamento com um banco para pagar o restante após a entrega das chaves, o valor a ser financiado também terá sido reajustado pelo INCC. 

A pedido da reportagem, Silvia Cristina da Silva Okabayashi, coordenadora do curso de Economia da Universidade Metodista de São Paulo, realizou uma simulação de como o INCC atua no saldo devedor. Foi considerado um imóvel na planta sem entrada, comprado em abril por R$ 500 mil, valor que seria pago em 250 parcelas de R$ 2 mil. O saldo devedor seria reajustado pelo INCC, que ficou em 2,22% no mês de maio. Desse modo, o valor passaria a ser R$ 511.100. Dividindo a quantia pelo total de parcelas restantes a pagar, o valor de cada prestação aumentaria para R$ 2044,40. Ao pagar a parcela, o saldo devedor diminui para R$ 509.055,60. 

“Observe que, mesmo depois de pagar uma prestação, a dívida continuou sendo maior que os R$ 500 mil iniciais. O reajuste do INCC fez sua dívida subir mais do que ela pode cair com o pagamento da prestação”, afirma a professora. No mês seguinte, esse saldo devedor maior que o inicial seria reajustado pelo INCC e dividido pelo número de parcelas restantes novamente, e assim por diante.

O que fazer em caso de reajuste

Para quem está com dificuldades para pagar as prestações por conta dos reajustes, a saída, segundo os analistas, é apenas uma: tentar renegociar. “Se você não tiver uma folga no seu orçamento que comporte essa elevação das prestações, você pode tentar procurar a construtora para negociar. Tentar talvez uma prorrogação, uma divisão do saldo devedor em mais parcelas”, diz Ana Maria Castelo, do Ibre/FGV. “É caso a caso, mas a regra que define se isso será possível é realmente o entendimento entre as partes.” 

Jafet diz que outra possível negociação seria em relação aos materiais usados na obra. “Se for um apartamento popular, como do Casa Verde e Amarela, onde é tudo determinado, não daria certo. Mas, em um apartamento de alto nível, pode ser que o comprador consiga negociar alguns detalhes, trocar um material mais caro por um mais barato, ou não usar um acabamento que queria originalmente usar. Pode ser mais difícil, mas, caso a construtora tope, com a troca de uma torneira de R$ 1 mil por uma de R$ 500, por exemplo, talvez você consiga que a construtora possa abater esses R$ 500 do saldo devedor”, diz.

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Custo de materiais de construção tem alta recorde e afeta reformas e planos de construtoras

Indicador da FGV que mede a variação de preços de materiais e equipamentos registra avanço de quase 33% em 12 meses; com reajustes sucessivos, entidade que representa o setor reduz de 4% para 2,5% expectativa de crescimento neste ano

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 05h00

RIO - Os planos da faxineira Eliana Pimentel dos Santos, de 45 anos, para a construção da casa em Guaratiba, na zona oeste do Rio, tiveram de ser adiados por conta da inflação. A ideia era começar a erguer as paredes da nova casa de três quartos agora em julho, mas o dinheiro guardado para os vergalhões que sustentariam as colunas não foram suficientes para a compra orçada com antecedência. Com isso, o trabalho no terreno da família só poderá ser retomado em agosto.

“Mês passado, o ferro estava R$ 14 a vara. Este mês está R$ 22, aumentou muito. A vendedora falou que, se você quiser comprar um material que custa R$ 20, tem de guardar R$ 40, porque está aumentando de um dia para o outro”, disse Eliana. A fundação da casa já está pronta, mas, nesse ritmo, a expectativa é que ela, os dois filhos e o neto só consigam se mudar para o local no fim do ano que vem.

A alta de preços não está restrita aos vergalhões. O item referente a materiais e equipamentos de construção acumula uma alta recorde de 32,92% no período de 12 meses encerrado em junho, segundo o Índice Nacional de Custo da Construção - Disponibilidade Interna (INCC-DI), apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o maior patamar desde o início do Plano Real. Já o INCC-DI completo, incluindo também preços de mão de obra e de serviços, registra uma alta de 17,34% no período – ainda assim, muito além da inflação oficial (8,35%). 

Os itens que mais subiram de preço no período foram tubos e conexões de ferro e aço (alta de 91,66% em 12 meses até junho de 2021); vergalhões e arames de aço ao carbono (78,35%); condutores elétricos (76,19%); tubos e conexões de PVC (64,91%); eletroduto de PVC (52,06%); esquadrias de alumínio (35,21%); tijolo/telha cerâmica (33,82%); compensados (30,47%); cimento portland comum (27,62%) e produtos de fibrocimento (26,96%).

Essa disparada nos preços atrapalhou também os planos do empresário Raphael Paiva de Souza, de 30 anos, dono de uma loja de móveis. Ele precisou adiar a reforma que planejava fazer na casa onde mora com os pais, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. A ideia original era reformar as salas de estar e de jantar e o lavabo, mas, com os preços subindo, o último cômodo acabou ficando para depois. 

“Os materiais de construção já estavam em um valor alto e a mão de obra também, então optamos por adiar a reforma do lavabo e pensamos em comprar as coisas aos poucos", disse. "Assim que eu tiver todos os materiais, vou chamar a mão de obra. Mas estou acompanhando os preços desde julho do ano passado e realmente nesse último mês subiu muito.” 

Ele disse que aguardava alguma promoção para conseguir realizar as compras e que ficou “chocado” com o ritmo com que os preços aumentaram. “Principalmente o piso que a gente queria, de porcelanato: há seis meses, era R$ 98 o metro quadrado e agora está R$ 164. O cimento também está subindo muito.” 

O plano de Raphael era terminar toda a obra antes do Natal deste ano. “Estamos na esperança de poder receber as pessoas em casa até lá. Então, o lavabo já reformado facilitaria bastante”, disse. Ele também planejava comprar um terreno até o fim do ano, para construir um galpão para a empresa. “Mas esse aumento de preços dos materiais está me deixando preocupado, porque não vou ter o capital para fazer a construção.”

Impacto nos negócios

Em junho, o aumento de custo da matéria-prima foi apontado, pela primeira vez, como o principal empecilho aos negócios nas empresas de construção, segundo dados da Sondagem da Construção, também da FGV. No mês, 36,4% das empresas ouvidas pela Sondagem da Construção apontaram o encarecimento da matéria-prima como principal limitador à melhoria dos negócios, ultrapassando assim as menções a problemas como demanda insuficiente (35,3%), questões financeiras (16,9%) ou acesso a crédito bancário (13,1%).

“Acho que essa é uma questão que ainda está latente”, disse Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV). “É uma questão que preocupa, porque dificulta até a formação de orçamentos. Porque as empresas formam um orçamento hoje, mas quando forem lançar o imóvel, quando forem vender, os preços estão subindo muito, como você faz essa projeção? É uma questão que complica significativamente. Por outro lado, para as famílias que já compraram imóvel e têm suas parcelas indexadas pelo INCC isso também é um problema, porque o índice está subindo de uma forma expressiva. É um componente que traz uma tensão ao cenário.”

Empresários do setor se queixam que o descontrole de preços de materiais pode frear o ritmo de recuperação da atividade de construção. “Está impactando e impactará muito para o futuro. No primeiro trimestre a gente viu redução de lançamentos imobiliários. Poderia estar no auge, no momento mágico”, disse José Carlos Rodrigues Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

A CBIC revisou no início do ano as suas expectativas de crescimento do setor em 2021, de 4% para 2,5%. “O setor continua crescendo, mas ele poderia crescer bem mais se não fosse esse problema de aumento dos insumos”, resumiu Martins.

O presidente da entidade explica que a alta de insumos muito acima do previsto tem corroído o lucro conquistado pelas construtoras com os aumentos recentes nas vendas, sob o risco de transformar em prejuízo o que já foi arrecadado para lançamentos futuros, que terão obras com custo mais elevado.

“Eu vendo uma unidade habitacional. Conforme o tipo de contrato, tem zero de reajuste. As vendas pela Caixa Econômica, que são 70% do mercado, não têm reajuste. Você não previa um aumento de custo desse tamanho. Então a empresa começa a ter problema. Aí ela vai lançar um novo empreendimento, mas pensa que a venda pode ser não um lucro, mas um prejuízo, já fica temerosa. Mesmo assim, ela precisa lançar mais para compensar os prejuízos nesses contratos assinados, isso no mercado imobiliário. Quando você vai para obra pública, as obras que têm reajuste, e não são todas, são obras de dois ou três anos, porque até 12 meses é proibido ter reajuste”, relatou Martins, acrescentando que essa incerteza sobre os custos e a impossibilidade de reajustes no contrato têm afastado construtoras de editais públicos lançados recentemente.

A alta de preços dos insumos chegou a prejudicar a retomada no índice de confiança da construção a partir do último trimestre do ano passado, quando desceu de um patamar de 95,2 pontos em outubro até 85,0 pontos em abril deste ano. Em junho, houve melhora, para 92,4 pontos, mas ainda com as expectativas mais positivas que as avaliações sobre a situação atual.

“A gente associou muito essa perda de ímpeto da confiança à questão dos aumentos dos preços. A falta de matérias-primas também foi assinalada, mas a assinalação maior foi em relação a esses preços das matérias-primas”, relatou Ana Maria Castelo, do Ibre/FGV. “Realmente esse pode ser um empecilho (ao crescimento futuro do setor).”

Custo da mão de obra também aumenta

O custo nacional da construção, por metro quadrado, foi de R$ 1.421,87 em junho, sendo R$ 829,19 relativos aos materiais e R$ 592,68 referentes à mão de obra, segundo os dados do Índice Nacional da Construção Civil (INCC/Sinapi), apurado pelo IBGE. A inflação do setor apenas no mês de junho foi de 2,46%, a taxa mais elevada da série histórica com desoneração da folha de pagamentos, iniciada em 2013. O custo de mão de obra e insumos na construção ficou 20,92% mais caro nos últimos 12 meses até junho, também a maior alta de preços da série.

O resultado de junho teve impacto do dissídio coletivo de profissionais que atuam no setor em 10 Estados, mas a pressão acumulada dos preços de insumos é o que vem renovando mês a mês os recordes na inflação do setor, apontou Augusto Oliveira, gerente do INCC/Sinapi. Ele aponta que os materiais derivados de aço, PVC e cobre são os que mais têm sofrido reajustes. Há a questão do aumento nas matérias-primas no mercado internacional, mas também a oferta insuficiente para suprir a demanda aquecida.

“É uma conjuntura de situações. Demanda aquecida, obra de formiguinha, nas empresas de maior porte as obras continuaram na pandemia, a demanda continuou. Tivemos notícia que é o melhor período da construção civil”, disse Oliveira.

Segundo ele, os vendedores de materiais de construção que são informantes na pesquisa têm relatado escassez de produtos, que chegam no mês seguinte com preços mais elevados, por reajustes efetuados ainda na indústria. “O informante fala, olha, está difícil de entrega e quando entrega vem com alta (de preço)”, relatou o gerente do INCC/Sinapi.

A inflação no varejo, apurada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também do IBGE, mostra que as famílias estão pagando consideravelmente mais pelo cimento (17,73% em 12 meses até junho), tijolo (25,10%), material hidráulico (37,98%), revestimento de piso e parede (23,27%), ferragens (22,74%) e telha (22,08%). / COLABOROU HELOÍSA SCOGNAMIGLIO

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