Aluguel nos aeroportos brasileiros é mais caro do que em shopping de luxo

Varejistas pagam até R$ 952 por metro quadrado em Congonhas; no shopping Iguatemi, em São Paulo, valor é de R$ 769

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h09

Os aeroportos brasileiros superaram os shoppings de luxo na lista de endereços mais caros para o varejo. As licitações mais recentes para alugar uma loja no aeroporto de Congonhas, por exemplo, fecharam com preços bem superiores à média do metro quadrado cobrada no shopping Iguatemi, em São Paulo, que custa R$ 769, segundo ranking da Cushman&Wakefield de 2012, que traz o espaço como o mais caro para os lojistas no Brasil.

A fabricante de meias e roupas íntimas Lupo, por exemplo, inaugurou no mês passado uma loja no aeroporto de Congonhas - um espaço de 21 m² , cujo aluguel custa R$ 20 mil. São R$ 952 por cada metro quadrado ocupado, o preço mais alto pago pela rede, que mantém cerca de 250 lojas no Brasil, de acordo com a gerente de franquias da marca, Carolina Pires. Isso porque a Lupo conseguiu levar o espaço pelo preço mínimo. Como foi a única empresa interessada na licitação, não teve de participar de um leilão.

No caso da lanchonete popular de Congonhas, que prevê a oferta de alimentação a preços comedidos, uma disputa entre nove empresas no pregão realizado no fim do ano passado inflou o valor de locação para quase quatro vezes o lance inicial. A área de 68 metros quadrados no subsolo do desembarque foi alugada por R$ 67 mil mensais pela RA Catering, ou R$ 985/m².

A Infraero faturou R$ 1,3 bilhão com a exploração comercial dos aeroportos em 2012, uma alta de 17,5% em relação a 2011. Ao todo, a empresa tem 5 mil contratos ativos em 63 aeroportos, que lhe garantem cerca de 30% de sua receita.

"O preço disparou nos últimos anos e superou os shoppings de luxo. Isso não era uma situação normal no País", disse Mauro Gandra, presidente da Associação Nacional de Concessionárias de Aeroportos Brasileiros (Ancab), entidade que reúne as principais empresas que alugam espaços nos aeroportos. Ele atribui a alta no valor das locações ao reajuste de preços na tabela da Infraero e à maior concorrência entre os varejistas pelos espaços.

O especialista em infraestrutura aeroportuária e consultor da Aeroservice, Mário de Mello Santos, diz que o custo mais alto do aluguel em aeroportos do que em shopping centers é praxe no exterior. O motivo é que o varejista tem acesso a um local com tráfego de passageiros intenso e concorrência menor. Os aeroportos brasileiros registraram 193 milhões de embarques e desembarques no ano passado, segundo a Infraero.

"Um local com limitação de concorrência permite que o varejo trabalhe com margens mais altas. Por isso tende a ser mais caro", disse o presidente do Programa de Administração de Varejo, Claudio Felisoni.

No Brasil, a alta dos aluguéis nos aeroportos foi puxada por uma mudança no formato da licitação da Infraero no fim de 2009. "Começamos a oferecer os espaços por meio de pregão presencial, que propicia uma disputa maior entre as empresas", disse o superintendente regional da Infraero em São Paulo, Willer Furtado. "Uma pode cobrir o lance da outra, o que antes não era possível, e isso acaba pressionando os preços."

A Infraero estabelece um preço mínimo para a locação do espaço e inicia um leilão. Segundo Furtado, o valor é definido pela Infraero de acordo com pesquisas feitas em todos os aeroportos administrados pela estatal e até em shopping centers.

O preço do aluguel mais caro reduz a rentabilidade das lojas e já motivou alguns varejistas a desistir do espaço. "As nossas lojas em aeroportos vendem mais que em um bom shopping na mesma cidade, mas a rentabilidade é menor porque o aluguel custa muito mais", disse o diretor de varejo da Dudalina, Rui Hess de Souza.

A empresa abriu sua primeira loja em aeroporto há sete anos, em Curitiba, e hoje tem espaços alugados também em Congonhas, Navegantes, Maceió, Recife e Londrina. A Dudalina tentou entrar nos aeroportos de Salvador e Porto Alegre, mas desistiu no meio do leilão. "O lance ficou acima do ponto de equilíbrio. Só entramos se a loja for sustentável. Onde estamos dá lucro", disse Souza.

Algumas licitações nem chegam à fase de leilão e terminam sem interessados. Foi o caso de 14 das 60 licitações para exploração de áreas comerciais feitas nos aeroportos paulistas entre 2012 e junho de 2013, segundo levantamento do Estado com base nos dados da Infraero.

O custo de manter lojas nos aeroportos também pesou no caixa da rede de livrarias Laselva, que pediu recuperação judicial em maio. Em nota enviada pela assessoria de imprensa, a empresa disse que suas despesas com aluguéis subiram 40% entre 2007 e 2012 devido às "mudanças nos sistemas de licitação".

A Laselva tem a maioria de suas lojas em aeroportos e promoveu uma expansão agressiva no setor nos últimos anos - o número de unidades saltou de 40 para 80 em seis anos. "Esses fatores levaram o grupo a promover uma força tarefa de reestruturação operacional e financeira, apoiada nas regras da lei de recuperação de empresas", disse a Laselva.

Marketing. Para algumas empresas, estar dentro de um aeroporto traz oportunidades que vão além das vendas. É o caso da Lupo, que quer usar o espaço para fazer ações de marketing com o cliente. "A loja se paga, mas não dá um retorno mirabolante", disse Carolina. "Por isso, entramos no espaço pensando também em uma proposta de marca."

Com a loja no aeroporto, a Lupo tenta mostrar para o cliente que está por perto num momento em que ele pode precisar, como quando esquece de levar uma peça de roupa para a viagem. Para entrar em Congonhas, a empresa optou por uma loja própria e não franquias - hoje apenas quatro de suas 247 lojas são operadas pela empresa. "É um custo alto e um risco maior. Os franqueados não assumem esse risco", disse a executiva da Lupo.

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