Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters
Imagem Pedro Fernando Nery
Colunista
Pedro Fernando Nery
Doutor em Economia
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Aman School of Management

Mas nem é justo culpar as Forças Armadas como um todo, o que inclui um grande contingente de baixa patentes que nada tem a ver com os desastres associados aos militares

Pedro Fernando Nery, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2021 | 04h00

Chegaremos em novembro aos 614 mil. Eram 14 mil quando o general criticou a imprensa: muito mais pessoas morriam de quedas, afogadas ou de acidentes. Mas, nem por isso, as pessoas deixam de se exercitar, dirigir carros, andar de ônibus. Um raciocínio burro em estatística porque, ao levar a vida normalmente sem se prevenir, a probabilidade de pegar e sofrer com a covid-19 era maior do que dessas outras causas. A matemática de uma epidemia também era ignorada: as mortes de covid cresciam aceleradamente, as das outras causas, não.

Era uma coletiva em uma posição de liderança, então cabia uma dúvida: só um problema de cognição ou de caráter? Um ano depois, em áudio vazado, confidenciava: tinha medo de morrer. Era caráter. A sustância moral de um general tão corajoso que se vacinou escondido. Onde se forma essa gente?

Na Aman. A Academia Militar das Agulhas Negras é a faculdade do primeiro escalão. Fornece gestores para qualquer assunto. Na Saúde, Pazuello e um punhado de coronéis que alcançaram o indiciamento pela CPI eram técnicos egressos da academia. Alma mortem.

Os bacharéis dali já foram responsáveis pela Casa Civil e até pela live das urnas eletrônicas. “Amaníacos” chefiam inclusive empresas: Correios, a de logística, a dos hospitais universitários. É mesmo uma escola de negócios. Um desses CEO é tão capaz que já trocou de estatal: comandava a crise da energia e agora, a crise da gasolina.

Não é fácil passar na Aman. Mas até Bolsonaro entrou. A Aman deve destruir mais capital humano do que uma faculdade de Direito – diria um amigo meu. 

A formação não é só técnica. Os alunos devem cultuar o quadripé. De verdade, lealdade, probidade e responsabilidade. Têm um código de honra. Lembrei dos ministros – civis – formados também lá: o machista que deu piti na CPI, o bajulador que comparou o capitão a Roosevelt e Churchill: “Pegaram terra arrasada e entraram para a história!”. 

Tudo bem, uma escola de oficiais não pode levar toda a culpa por seu “alumni”. Mas nem é justo culpar as Forças Armadas como um todo, o que inclui um grande contingente de baixa patentes que nada tem a ver com os desastres associados aos militares. 

O Brasil descobriu que tem oficiais muito ruins. Na reconstrução, precisaremos debater o que fazer com essas escolas “deformação”.

*DOUTOR EM ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.