Amargo regresso

Mais de 80% do pequeno crescimento da economia registrado entre 2015 e 2018 ficou na mão dos mais ricos

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

Há uma década, o otimismo predominava e o futuro do Brasil parecia melhor. Caminhamos muito desde então, nem sempre para a frente. Entre o ano 2000 e 2010 o PIB per capita cresceu 27%, ante 9,1% nos anos 90 e uma queda de 4% na década de 80. Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – Distribuição de Renda nos Anos 2010: Uma Década Perdida para Desigualdade e Pobreza, de R. Barbosa, P. Souza e S. Soares – calcula que o índice de Gini, medida usual da distribuição de renda, tenha caído 10% na primeira década deste século, indicando menor concentração. Parecíamos ter achado o caminho. Só que não. Fomos presas fáceis de uma conjuntura internacional menos favorável e, em especial, de uma longa miscelânea de asnices na política econômica.

Analisando os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) entre 2012 e 2018, os autores do estudo identificam que o ano de 2015 foi o divisor de águas na tendência da distribuição de renda. Entre 2012 e 2015, a taxa de crescimento dos estratos de renda mais pobres ficou acima da média. Para o período entre 2015 e 2018, ao contrário, a pequena recuperação da economia beneficiou os mais ricos, de tal sorte que a renda real dos 10% mais pobres em 2018 era menor que a de 2012. A distribuição de renda ficou mais concentrada. O índice de Gini caiu de 0,541 para 0,525 no primeiro período, mas subiu para 0,545 em 2018. Mais de 80% do pequeno crescimento da economia registrado entre 2015 e 2018 ficou na mão dos mais ricos. O PIB per capita de 2020 deve ser 6% menor que o de 2010.

O auxílio emergencial teve forte impacto na pobreza e na distribuição de renda, revertendo momentaneamente a tendência de pauperização e concentração de renda. Segundo cálculos do economista Daniel Duque, da FGV, o auxílio reduziu a pobreza para o menor porcentual em 40 anos. O total de brasileiros com renda de até US$ 5,50 por dia passou de 58,8 milhões (28% da população) em maio para 43,7 milhões (ou 20,7% da população) em agosto. Reação fulminante. Em setembro, contudo, o corte da ajuda para R$ 300,00 surtiu efeito igualmente instantâneo e este segmento da população já cresceu para 46,3 milhões.

Outro estudo (Auxílio Emergencial e seu Impacto na Redução da Desigualdade e da Pobreza, de P. Monte, da UFPB) calcula que o índice de Gini, sempre ele, de junho foi de 0,48 considerando o auxílio, mas teria sido de 0,54 se não houvesse a ajuda federal. De forma análoga, a pobreza extrema (condição da população que ganha menos de US$ 1,90 por dia) castigou 3,2% dos brasileiros com o auxílio, porcentual que subiria para 14,4% sem ele. Os números são eloquentes.

Mas a mágica está no fim. O governo está intoxicado pela própria saliva e não consegue levar adiante as propostas rasas que lança aos borbotões. O mercado financeiro, esta entidade espírita, fica com siricutico todas as vezes que se cogita de alterar a norma que regula o teto dos gastos públicos. Mesmo a redução de subsídios para financiar parcialmente uma corruptela do auxílio emergencial é rejeitada. Cortar despesas por meio de uma ampla reforma administrativa está fora do radar, dada a inépcia política de um presidente que nem sequer conseguiu coletar as assinaturas necessárias para formar seu partido político.

Tudo isso sugere que a aterrissagem em 2021 não será suave. Manter o auxílio da forma como está é inviável. Sua supressão terá forte impacto na população mais pobre, já afetada pelo flagelo do desemprego e da inflação dos alimentos, que acumula 18,4% nos últimos 12 meses. A perda da popularidade do governo, no rastro das mazelas econômicas, dificultará a aprovação de reformas. 2020 tem sido o ano que vivemos em perigo. O próximo ano não promete menores emoções.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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