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Adalberto Val é pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciência para a Região Norte Abciencias/Twitter

‘Amazônia precisa ter polos tecnológicos’, diz pesquisador do Inpa

Para biólogo, País tem de investir no conhecimento sobre a região para conseguir explorar seu potencial econômico

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 14h06

 

Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciência para a Região Norte, o biólogo Adalberto Val afirma que é preciso aumentar as pesquisas na floresta para conseguir explorá-la de forma sustentável. Ele propõe a criação de institutos científico-tecnológicos e universidades para pesquisa, que, segundo cálculos de 2008, demandariam investimentos de R$ 30 bilhões em dez anos. Em valores atualizados, R$ 55 bilhões. “É importante capacitar e fixar pessoal na Amazônia”, diz. A seguir, trechos da entrevista:

Existe no Brasil uma exploração sustentável da Amazônia como, por exemplo, fonte de soluções para a indústria?

Aqui, quando se trata de produção de larga escala, significa desmatamento. Criar boi ou plantar soja têm significado isso. Quando você desmata uma região como a Amazônia, não tem como falar em recuperação. Quando você queima uma floresta, você mata micro-organismos no solo que são responsáveis pela fertilidade que mantém a floresta em pé. Perdemos a galinha dos ovos de ouro. Depois de três anos (de exploração de soja ou cana), não se produz mais nada, porque aí é preciso um investimento alto em fertilizantes. Viva, a floresta tem resultados para inclusão social, geração de renda, saúde das populações em geral mais robustos do que ela cortada, gerando recursos para poucas populações.

A exploração sustentável hoje, então, é quase inexistente?

Tem alguns exemplos. Temos uma fazenda de criação de peixes que utiliza informações científicas para a produzir pirarucu. Há uma organização que produz látex para uso medicinal e em preservativos. Tem organizações usando material para cosméticos, como a Natura.

Quais os entraves para dar escala a essas produções?

É preciso decodificar o conjunto de informações que existe sobre a floresta e estimular a inclusão social. Uma política voltada para isso seria mais eficiente do que derrubar a floresta. Enquanto o investimento em ciência e tecnologia for limitado – o que não ocorre só nesse governo, mas há anos –, será muito difícil, porque dependeremos de pesquisas feitas em outros lugares. É importante capacitar e fixar pessoal na Amazônia. Ter polos tecnológicos em diferentes lugares da Amazônia, porque ela é diversa. Precisamos ter soberania de conhecimento sobre a região. O vasto conjunto da Amazônia que está no nosso território nos impõe isso. Precisamos conhecer o que está dentro dela, porque o que tem de potencial tem também de perigo: novos vírus e bactérias. 

Qual o potencial econômico da exploração sustentável da Amazônia?

A maioria do que está escondido na floresta pode ter repercussão grande. Dou o exemplo de quatro cadeias produtivas que trabalhamos hoje: do pirarucu, do cacau, do açaí e da castanha do Brasil. Essas cadeias estão relativamente organizadas e têm uma produção significativa de recursos. 

A descoberta, por exemplo, de insumos para a indústria farmacêutica por meio de investimento em pesquisa não poderia acarretar também em uma destruição futura da floresta?

Não acredito. A química moderna é avançada. A droga que descobrirmos na floresta pode ser sintetizada em laboratório muito rapidamente. Um outro exemplo: em São Paulo, se produz um peixe chamado tambaqui. Depois de algum tempo em que você produz esses animais em cativeiro, existe uma degradação da qualidade genética. Aí, é preciso voltar à natureza para inserir a variabilidade genética e recompor os estoques de cativeiro. No caso do tambaqui, a única região que tem essa espécie é a Amazônia. 

Como vê as políticas do governo para exploração da floresta?

Não tem política. É a política do desmantelamento de tudo que foi construído para preservar o ambiente. Os investimentos em conhecimento da floresta foram reduzidos a nada.

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Pressão interna e externa faz crescer interesse na bioeconomia da Amazônia

Ameaça de cancelamento de investimentos por conta do aumento das queimadas fez região voltar ao foco dos debates; associações e empresas apresentam seus projetos, que se baseiam no conceito de crescimento sem destruição

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 14h11

 

A discussão em torno do avanço das queimadas na Amazônia deixou mais evidente que o Brasil precisa decidir com urgência uma estratégia para a região. É a primeira vez, em mais de quatro décadas, que a região passou a ser o tema principal dos debates no País, principalmente pelo aumento da pressão feita tanto por investidores estrangeiros quanto por grandes empresários brasileiros.

Longe do desmatamento feito para o avanço da pecuária ou da agricultura e também dos projetos de mineração, as soluções propostas para a região passam pelo desenvolvimento de uma bioeconomia (economia sustentável) que surge com cada vez mais força.

Entidades civis, empresários de diversos setores, especialistas em meio ambiente e até ex-presidentes do Banco Central e ex-ministros da Economia já levaram ao governo sugestões para a criação de uma economia verde na região. A ideia unânime é usar recursos da floresta sem derrubá-la.

Na semana passada, o movimento recebeu reforço dos três maiores bancos do País. Bradesco, Itaú e Santander apresentaram plano com dez propostas que vão do estímulo às monoculturas sustentáveis, por meio de linhas de financiamento, ao plano de atrair investimentos que promovam parcerias e o desenvolvimento de tecnologias voltadas à bioeconomia.

Para Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), a Amazônia pode ser um foco de desenvolvimento, principalmente neste momento em que o País precisa sair da crise, buscar financiamento externo e afastar o risco de ter produtos da área agrícola boicotados no exterior.

“O Brasil é a terceira potência mundial em exportação de produtos agrícolas e estamos correndo o risco de sermos penalizados por causa da questão da Amazônia, por isso essa deve ser uma das prioridades do governo brasileiro”, diz Barbosa.

Junto com o Instituto Escolhas, o Irice entregou ao vice-presidente Hamilton Mourão propostas para destravar a bioeconomia da Amazônia nas áreas de financiamento e estrutura, desenvolvimento de produtos e de mercados e proteção da biodiversidade (veja exemplo no quadro abaixo). 

Em artigo para a revista Interesse Nacional, que preparou uma edição especial sobre bioeconomia, o próprio Mourão defende uma articulação entre governo e iniciativa privada para o desenvolvimento sustentável da região. “O futuro da Amazônia depende de uma articulação original entre capital, conhecimento, trabalho, tecnologia e natureza”, diz.

Empregos

Nos planos para a Amazônia, uma das preocupações é a geração de empregos. O potencial é de milhares de vagas. Apenas dois projetos já apresentados pelo Instituto Escolhas preveem a criação de quase 500 mil empregos nas áreas de reflorestamento e desenvolvimento da piscicultura.

“Eu acho que tem um movimento interessante, o tema voltou a ficar quente. Em que pesem as resistências da Presidência, o País está começando a entender que, se não tratar bem a questão do meio ambiente, está fora do jogo dos investimentos internacionais, porque isso está sendo cobrado como condição”, diz Sérgio Leitão, diretor executivo do instituto.

Um dos projetos do instituto prevê o reflorestamento de 12 milhões de hectares de áreas desmatadas, meta assumida pelo governo brasileiro em 2015 no Acordo de Paris. Pronto há quatro anos, o estudo prevê a necessidade de investimentos públicos e privados de R$ 52 bilhões até 2030. A estimativa é de geração de R$ 28 bilhões em receitas e 215 mil empregos. “Seriam necessárias 8 bilhões de árvores nativas para cobrir a área”, diz Leitão. “O País criaria uma indústria de recuperação de floresta tropical e envolveria uma grande cadeia produtiva.”

Várias instituições querem que projetos para uma Amazônia sustentável façam parte do programa de retomada da economia no pós-pandemia, até porque as pressões externas pelo fim do desmatamento colocam em risco novos investimentos no País. “Os investidores estão carimbando o dinheiro e ele só poderá ser usado em projetos com impacto social e ambiental positivo”, diz Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que reúne 60 grandes grupos empresariais e também levou propostas ao governo.

::: PROJETOS QUE ESTÃO NA LISTA:::

Desmatamento zero

Acabar com o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. O desmatamento responde por emissões de CO2 maiores que as de todo o setor industrial ou o de transporte. (17 ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do BC e de 60 das maiores empresas do País)

Lastro verde

Fomentar projetos de desenvolvimento econômico e conservação por meio de ativos e instrumentos financeiros de lastro verde, como o pagamento por serviços ambientais e CBIOs – mercado de créditos de descarbonização. (Bradesco, Itaú e Santander)

Desenvolvimento industrial

Mapear as matérias-primas e recursos da região amazônica, identificando a vocação de cada microrregião, e estimular o desenvolvimento da indústria local. Criar programas de atração e fixação de pesquisadores na Amazônia. (Irice e Instituto Escolhas)

Sebrae da Floresta

Implementar o “Sebrae da Floresta”, com foco nos produtores para estimular a cultura empreendedora na região. Incentivar, via acesso a crédito e a políticas públicas, a formalização dos produtores, cooperativas e associações locais. (Irice e Escolhas)

Plano de zoneamento

Fazer valer o plano de zoneamento econômico ecológico para definir as vocações de cada Estado. O plano prevê, por exemplo, o desenvolvimento de sistemas agroflorestais, técnicas sustentáveis para a pecuária onde a atividade já existe e concessões para exploração sustentável. (iCS)

Plano Safra

Adequação do Plano Safra, colocando metas de financiamento para a agricultura de baixo carbono e, assim, evitar a degradação da floresta pelo uso não sustentável, principalmente pela pecuária. Ampliar a verba do programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que hoje não chega a 5% do total de financiamentos do Plano Safra. (iCS)

Bolsa de Mercadorias

Criação da Bolsa de Mercadorias da Amazônia (BMA), que funcionaria como um mercado onde vendedores e compradores se reúnem para negociar os produtos do bioma amazônico, com garantia de qualidade, entrega e pagamento. Isso seria garantido por meio de instrumentos como contratos padronizados, unidades de recebimento e armazenamento de produtos estrategicamente posicionados, além da disseminação em massa dos preços em tempo real. (Governo do Estado do Amazonas)

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Instituto defende plano de zoneamento ecológico para região

Gustavo Pinheiro, coordenador do iCS, afirma que programa criado nos anos 80 está desatualizado

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 14h06

 

O coordenador do Portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade (iCS), Gustavo Pinheiro, afirma que o primordial para o desenvolvimento da Amazônia sem necessidade de derrubar a floresta é colocar em prática um plano de zoneamento econômico ecológico. O plano existe desde os anos 80 e já foi utilizado por alguns Estados, mas foi abandonado há 17 anos e está desatualizado.

O iCS prepara projeto a ser implementado com outras organizações para subsidiar o Fórum dos Governadores da Amazônia em relação à economia sustentável para a região. “A ideia é buscar a atualização do zoneamento econômico ecológico e montar políticas específicas que contribuam para o desenvolvimento das regiões, que têm diferentes vocações”, diz.

As propostas passam por fazer bom uso das áreas que já foram convertidas para agricultura e pecuária e fazer concessões à exploração sustentável. “Isso tiraria a pressão da floresta, pois o desmatamento se dá porque o agricultor vai atrás de mais terra”, diz Pinheiro.

Um dos objetivos é que essas atividades não cheguem ao meio da floresta, para não colocar em risco ativos da biodiversidade que podem dar origem a produtos da bioeconomia com altíssimo potencial para setores como plástico, cosmético, farmacêutico, bebidas e alimentos.

Um exemplo citado por Pinheiro é que, segundo estudos, o plantio de açaí no meio da floresta gera renda seis a 20 vezes maior que a da pecuária. A ideia também é agregar valor ao produto local. A maior parte do cacau colhido na região é exportada, enquanto a produção do chocolate poderia ser feita no País.

Liderança

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), reforça que a economia verde é estratégica, “é a economia do futuro”.

Para ele, o Brasil tem condições de desempenhar um papel importante nesse processo pelo tamanho de sua riqueza natural, pela sua competência tecnológica em desenvolver uma nova matriz energética menos poluente e pela sua biodiversidade. “O Brasil tem condições de liderar o processo de uma transformação verde no mundo e se beneficiar muito disso.” 

Na opinião do economista, ficar para trás nesse processo é abrir possibilidades de perder vantagens que o País tem hoje, como o do agronegócio. Segundo ele, a mudança que vem pela frente será profunda e duradoura e inclui um novo padrão de consumo, de produção e tecnológico que vai implicar novos desafios ambientais e sociais.

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Bioeconomia na Amazônia é tema de discussão

Para especialista, investimento privado requer, antes, plano do governo que traga segurança jurídica e controles do desmatamento, de contrabando, do tráfico de armas e de grilagem.

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 14h06

 

Não adianta o governo desenvolver uma política para a Amazônia se o setor privado não investir, afirma o presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), Rubens Barbosa. Para que isso ocorra, diz, é preciso ter segurança jurídica, regras claras, controle do desmatamento, das práticas ilegais, do contrabando, do tráfico de armas, da grilagem.

“Tudo isso é uma política que o governo tem de fazer, mas sem a participação da iniciativa privada fica difícil”, diz Barbosa. Ele defende que as empresas descubram maneiras de produzir na região. Cita, por exemplo, a Natura, que utiliza produtos da floresta para fazer cosméticos, mas não tem fábrica lá.

Nesta segunda-feira, a revista Interesse Nacional, editada por Barbosa há 13 anos, trará sua primeira edição especial, com mais de 50 páginas com artigos voltados à bioeconomia e várias propostas já apresentadas ao governo. A publicação foi feita em parceria com o Instituto Escolhas.

O vice-presidente Hamilton Mourão, em um dos artigos, afirma que o “governo brasileiro retoma a formulação de uma política de Estado para a Amazônia Legal guiado pela convicção de que a economia e a sustentabilidade precisam avançar juntas”. Segundo Mourão, que também é chefe do Conselho da Amazônia, a tríplice hélice entre governo, empresas e universidades poderá ser o motor de propulsão da bioeconomia e demais empreendimentos que visem à produção de bens e serviços a partir do uso responsável da biodiversidade amazônica.

Biodiversidade

Paulo Hartung, presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e ex-governador do Espírito Santo, cita em artigo que o Brasil, país com maior biodiversidade do mundo e com 66% de seu território coberto por mata nativa, “é uma mina de ouro para o desenvolvimento sustentável”.

Segundo ele, “cabe a nós, sem levar a discussão para o lado ideológico, saber transformar essa potencialidade em oportunidades de gerar empregos, produtos de valor agregado, com origem ambientalmente correta, procedência e qualidade, que trarão divisas ao País e levarão renda a comunidades afastadas dos grandes centros”.

O deputado federal e presidente da Frente Parlamentar da Bioeconomia, Alexis Fonteyne, reforça que a bioeconomia pode viabilizar o desenvolvimento sustentável, que alia o setor produtivo à preservação do meio ambiente.

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