AmBev vence prêmio da Agência Estado

Empresa de bebidas é a primeira do ranking da década entre as que tiveram o melhor desempenho do ponto de vista dos acionistas

Teresa Navarro, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Ao atingir a maturidade, o mercado de capitais brasileiro tem hoje tamanho e características completamente distintos do que tinha há uma década. As empresas listadas em bolsa aumentaram seu valor de mercado mais de 6,5 vezes no período. Na onda do crescimento das exportações, empresas brasileiras, que antes eram apenas vendedoras ao exterior, hoje ganharam dimensão de grupos globais.

É o que mostra o resultado do "Destaque Agência Estado Empresas da Década", que ontem homenageou as cinco companhias com o melhor desempenho nos últimos dez anos do ponto de vista do acionista. O reconhecimento às empresas da década comemora os dez anos da existência do prêmio, concedido anualmente, e os 40 anos da Agência Estado. São empresas e instituições financeiras que, como a vencedora AmBev, hoje têm presença internacional.

Em 1999, quando a Agência Estado e a Economática começaram a elaborar um ranking para medir, com uma metodologia própria, o desempenho de companhias de capital aberto, a bolsa paulista contava com 312 empresas listadas, somando valor de mercado de US$ 194 bilhões. Dez anos depois, as 325 empresas que negociam na Bovespa têm valor de mercado de US$ 1,26 trilhão, segundo dados da Economática.

Tamanha valorização está relacionada às chamadas expectativas. "A valorização acentuada das ações, sobretudo a partir de 2003, nada mais é do que a expectativa de um futuro favorável, que está se concretizando agora", diz o presidente da Economática, Fernando Exel.

Na década, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu no acumulado 38,5%, as exportações subiram 218,65% e, como consequência, a balança comercial, que era negativa em US$ 1,28 bilhão em 1999, no ano passado fechou positiva em US$ 25,34 bilhões, segundo dados do IBGE e do Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio.

O resultado do prêmio reflete bem o comportamento da economia brasileira. "As companhias que tiveram os melhores desempenhos em 2009 foram, sobretudo, as voltadas ao mercado interno, como as de varejo e serviços", diz Exel. A campeã do "Destaque 2010", que este ano conta com a auditoria da KPMG, foi a rede varejista Lojas Americanas.

Bola da vez. Mesmo quem já conquistou o mundo, como a AmBev, está atento ao mercado brasileiro. Com uma história que coincide com a do "Destaque AE Empresas", a campeã da década anunciou a fusão entre Brahma e Antarctica, dando origem à AmBev, em 1999, também primeiro ano do levantamento. A fusão deu início ao processo de internacionalização e a empresa está presente, hoje, em 14 países. Apesar do sucesso mundial, os planos para o futuro olham para o mercado interno. "Vamos aproveitar o fato de estarmos fortemente posicionados no Brasil, que é a bola da vez", diz o presidente João Castro Neves.

Também a Souza Cruz procura manter sua trajetória de crescimento no Brasil. Embora o foco continue sendo o cigarro, uma alternativa é a importação de charutos Dunhill quando a marca já estiver consolidada no mercado brasileiro, ou até mesmo de cigarrilhas. "Além disso, dentro da área de cigarros, poderemos ter produtos alternativos", afirma o presidente da Souza Cruz, Dante Letti. A empresa investe na pesquisa de um cigarro menos prejudicial à saúde, que chama de safer. "Quem sabe poderemos ter algo nesse sentido no mercado nos próximos anos."

Mas, se hoje o Brasil tem um mercado interno fortalecido, o primeiro impulso veio das vendas externas. "As exportações começaram o ciclo virtuoso, com a forte demanda da China por matéria-prima a partir de 2003", afirma Exel. Uma das maiores beneficiadas com esse movimento foi a mineradora Vale. Roger Agnelli, presidente da empresa, diz que a empresa foi "a que mais se despontou nesse processo, a que mais cresceu no mundo da mineração nos últimos dez anos". Acreditando na continuidade da forte demanda e, como consequência, na força para novas altas no preço do minério de ferro, Agnelli afirma que a Vale vai manter na próxima década o ritmo acelerado de investimentos.

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