Ambição de ser líder em sustentabilidade

Em menos de 60 dias, o governo brasileiro editou dois pacotes econômicos criando um conjunto de medidas para fomentar o consumo interno e, assim, nos livrar dos efeitos da crise financeira mundial. O programa Brasil Maior, anunciado no início de abril, e o decreto de redução de IPI, publicado no dia 22 de maio. Em ambos os pacotes, baseados na renúncia fiscal para estimular a produção e o consumo de veículos, a dimensão ambiental foi esquecida justamente no momento histórico em que as atenções das lideranças globais de diferentes setores estão voltadas para a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

MARINA, GROSSI, ECONOMISTA, PRESIDENTE DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (CEBDS) , MARINA, GROSSI, ECONOMISTA, PRESIDENTE DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (CEBDS) , O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h11

Ao longo desse tempo, temos defendido a tese de que as medidas econômicas devem estar integradas às dimensões ambiental e social. Da mesma forma, as iniciativas de cunho socioambiental precisam se conectar com a dimensão econômica. No caso dos dois pacotes governamentais, deveríamos associar a necessidade de turbinar a economia a medidas que estimulem a reconfiguração do modelo de produção e consumo, como, por exemplo, conceder um incentivo maior à pesquisa e desenvolvimento de veículos híbridos e elétricos. Também não podemos desassociar essas medidas das questões de mobilidade nas grandes cidades, hoje estranguladas com congestionamentos diários.

A partir de ações articuladas com os três pilares da sustentabilidade e integrando de forma estruturada os setores-chave da sociedade, é possível vencer os obstáculos conjunturais da economia e criar condições para substituição do modelo de desenvolvimento ultrapassado por um que seja sustentável. O potencial da economia verde é inquestionável. O relatório Vision 2050, elaborado pelo Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, rede mundial espalhada em mais de 30 países e da qual o CEBDS faz parte, aponta que só em recursos naturais, saúde e educação, a magnitude dos negócios movimentados pelo modelo da economia verde poderá chegar à ordem de US$ 500 bilhões a US$ 1,5 trilhão por ano em 2020, alcançando entre US$ 3 trilhões e US$ 10 trilhões por ano em 2050.

O CEBDS tropicalizou o relatório do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável e vai lançá-lo na Rio+20, em evento paralelo marcado para o dia 22 de junho, no Riocentro. O Visão Brasil 2050 contempla os princípios fundamentais do documento original, mas foi concebido para contribuir para o desenvolvimento brasileiro, propondo uma nova regulação para o modelo de desenvolvimento, como, por exemplo, criar incentivos para atividades de baixo carbono e estimular iniciativas sustentáveis para as áreas de habitação, saneamento, mobilidade, educação e formação profissional.

O Brasil, por uma coincidência histórica e geográfica, acabou por se tornar um líder na área de sustentabilidade. Temos a matriz energética mais limpa do planeta, dispomos da maior reserva de água doce disponível e a mais rica biodiversidade. Por força de uma crise mundial no fornecimento de petróleo nos anos 1970, desenvolvemos uma avançada tecnologia em biocombustível. Será um erro, agora, esperar por novas coincidências históricas. Precisamos aproveitar essa indiscutível vantagem competitiva e escrever nossa história com uma visão prospectiva e com medidas audaciosas, implantando um modelo de desenvolvimento capaz de atender efetivamente às nossas demandas ambientais e sociais.

Temos nas mãos uma excelente oportunidade para nos posicionarmos como país líder da economia verde, após a realização da Rio+20. Para tanto, precisamos deixar claro que as mudanças propostas são pensadas na direção da sustentabilidade, com visão integradora e de longo prazo, e não com medidas pontuais de curto prazo. Os holofotes da conferência estarão focados em nossa direção. Não podemos nos contentar em ser apenas mais uma nação emergente a caminho da quarta colocação no ranking mundial.

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