Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

Ambições corporativas

A Amazon, que embolsa mais de cinquenta centavos de cada dólar gasto online nos EUA, está só esquentando os motores

The Economist, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2017 | 05h00

A Amazon é uma empresa extraordinária. A ex-vendedora de livros embolsa mais de cinquenta centavos de cada dólar gasto online nos EUA. É a maior provedora de computação em nuvem do mundo. Deve investir este ano o dobro que a HBO em séries de TV. As linhas de produtos com a marca da varejista incluem baterias, ternos e alto-falantes ligados a um assistente virtual ativado por voz que é capaz, entre outras coisas, de acionar a iluminação de uma residência, regular a temperatura do ar-condicionado e até chamar um Uber.

Apesar disso, os acionistas da Amazon partem da premissa de que a empresa está só começando. De 2015 para cá, as ações da companhia acumulam alta de 173%, valorização sete vezes maior que a registrada entre 2013 e 2014 (e doze vezes superior ao desempenho do S&P 500). Com uma capitalização de mercado em torno de US$ 400 bilhões, a Amazon é quinta empresa mais valiosa do mundo. Nunca antes uma empresa valeu tanto, por tanto tempo, dando tão pouco dinheiro: 92% do preço de suas ações corresponde a lucros que, espera-se, virão a partir de 2020.

A razão disso é que os investidores apostam tanto numa elevação espetacular do faturamento, passando dos US$ 136 bilhões registrados no ano passado a meio trilhão ao longo da próxima década, como num salto nos lucros. Quem busca motivos para duvidar que a façanha seja viável não precisa procurar muito: a fim de justificar o valor que lhe é atribuído atualmente a Amazon terá de crescer mais rápido do que quase todas as outras grandes empresas da história moderna.

Tampouco é difícil listar algumas das pedras que a empresa encontrará pelo caminho. As concorrentes não vão ficar de braços cruzados. A Microsoft cultiva ambições no segmento de computação em nuvem; o Walmart já tem um faturamento que beira os US$ 500 bilhões, e está incrementando sua operação online. Se acontecesse alguma coisa com Jeff Bezos, fundador, presidente e CEO da Amazon, seria muito improvável que a empresa conseguisse realizar o que se espera dela. Mas o impressionante é que não são pequenas as chances de que suas metas prodigiosas sejam alcançadas.

Isso se deve, em grande medida, à abordagem incomum que a Amazon adota para lidar com duas dimensões da vida corporativa. A primeira delas é a temporal. Numa época em que os executivos vivem se queixando da pressão para gerar resultados no curto prazo, a Amazon tem seus olhos pregados no horizonte distante. Bezos aposta no investimento contínuo para impulsionar os dois principais negócios da empresa: o comércio eletrônico e a Amazon Web Services (AWS), sua unidade de computação em nuvem.

No comércio eletrônico, quanto mais consumidores a Amazon atrai, maior é o número de varejistas e fabricantes que querem pôr seus artigos à venda no site da empresa. Isso garante mais recursos para serem investidos em novos serviços, como as entregas em duas horas e os streamings, que, por sua vez, atraem mais consumidores. O mesmo vale para a AWS: quanto mais usuários a unidade conquista, mais a Amazon pode investir em novas ferramentas, que, por sua vez, despertam o interesse de mais usuários.

Enquanto os acionistas confiarem nesse modelo, a valorização da Amazon conservará seu ar de profecia autorrealizável. É uma confiança respaldada pelo desempenho histórico da Amazon. A companhia já teve alguns tropeços, mas começa a dar dinheiro grosso. Em 2016, o fluxo de caixa chegou a US$ 16 bilhões, mais que o quádruplo do registrado cinco anos antes.

Se a abordagem que a Amazon adota para lidar com a dimensão temporal é incomum, não menos rara é a enorme dispersão de suas atividades. Em seu balanço anual, a lista de atuais e possíveis concorrentes inclui empresas de logística, mecanismos de busca, redes sociais, fabricantes de alimentos e desenvolvedores de “mídias físicas, digitais e interativas de todos os tipos”.

Muitos desses serviços impulsionam a expansão da Amazon e também de outras empresas. O exemplo mais óbvio é a AWS, que potencializa tanto as operações da Amazon, como as de outras companhias. Mas a Amazon também aluga espaço de armazenagem para outras varejistas, está construindo um terminal de cargas aéreas de US$ 1,5 bilhão no Kentucky, vem testando uma tecnologia que permitirá aos consumidores fazer compras em lojas físicas sem ter de passar pelo caixa e realiza testes com entregas feitas por drones. Nada impede que esses recursos sejam utilizados para atender a consumidores de outras empresas. Há inclusive quem pense que a Amazon pode se tornar uma nova espécie de empresa de utilidade pública, oferecendo infraestrutura para o comércio, de poder computacional a serviços de pagamentos e logística.

Gigantes não têm como se esconder. E esse é o verdadeiro problema das expectativas que cercam a Amazon. Se a empresa chegar perto de realizá-las, acabará por atrair a atenção das autoridades reguladoras. Por ora, é improvável que a Amazon seja alvo de uma ação antitruste. Além de ainda não ser a maior varejista americana, as agências antitruste dos EUA se preocupam sobretudo com as consequências das ações das empresas para os consumidores e os preços. Por esse prisma, a Amazon parece irrepreensível. A empresa é, inclusive. a mais admirada dos EUA, segundo levantamento do instituto de pesquisas Harris.

No entanto, à medida que a empresa crescer, aumentará a preocupação com seu domínio. Mesmo pelos critérios atualmente adotados pelas autoridades antitruste, isso pode ser um problema: num cálculo por alto, se a Amazon faturar tanto quanto esperam os investidores, é possível que seus lucros representem 25% dos lucros somados de todas empresas de varejo e mídia de capital aberto do Ocidente. Não bastasse isso, a visão das autoridades reguladoras sobre o segmento de tecnologia também está mudando. Na Europa, o Google é acusado de se aproveitar da influência de seu mecanismo de busca para avançar sobre ramos de atividade adjacentes.

O modelo de negócios da Amazon também estimulará as autoridades a pensar diferente. Os investidores dão mais valor ao crescimento da Amazon do que a seus lucros; isso torna a precificação predatória mais tentadora. No futuro, é possível que algumas empresas dependam de serviços oferecidos por sua maior concorrente. Se a Amazon realmente se tornar uma provedora de infraestrutura para o comércio, haverá pressão para que ela seja regulada como uma empresa de utilidade pública. Os acionistas têm razão em acreditar no potencial da Amazon. Mas o sucesso fará com que a empresa entre em confronto com um monstro ainda mais poderoso: o governo.

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© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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