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Ambições imperiais

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, se prepara para disputar o domínio da próxima era da computação

The Economist

14 de abril de 2016 | 05h00

Só na época da Roma imperial o sinal de positivo foi um símbolo de poder tão influente e publicamente compartilhado. Passados apenas 12 anos de sua fundação, o Facebook é um verdadeiro império, com uma população enorme, riquezas descomunais, um líder carismático e um alcance e influência impressionantes. A maior rede social do planeta conta com 1,6 bilhão de usuários, um bilhão dos quais faz uso dela por mais de 20 minutos, em média, todos os dias. Suas páginas concentram, no mundo ocidental, a maior parte da atividade mais popular (cultivar relacionamentos sociais) a que as pessoas se dedicam nos dispositivos de informática mais largamente utilizados (smartphones). Entre os americanos, seus diversos aplicativos absorvem 30% da internet móvel. E, com uma capitalização de US$ 325 bilhões, o Facebook é a sexta maior empresa de capital aberto do mundo.

No entanto, Mark Zuckerberg, fundador e principal executivo da companhia, têm ambições que vão muito além disso. O jovem de 31 anos quer conectar os excluídos digitais dos países pobres, difundindo sinais de internet com drones movidos a energia solar e faz grandes apostas em inteligência artificial (IA), chatbots (aplicativos de mensagens de voz, capazes de executar tarefas como checar notícias, marcar reuniões e marcar voos) e realidade virtual (RV). A tentativa de fazer de sua empresa a potência dominante, colocará Zuckerberg cada vez mais em conflito com outros impérios do mundo da tecnologia, em particular o Google. A batalha que se avizinha deve moldar o futuro digital do planeta.

Impérios erigidos sobre dados. O Facebook tornou-se o que é hoje desenvolvendo serviços fascinantes, capazes de conquistar enorme audiência, cuja atenção pode então ser vendida a anunciantes. O mesmo vale para o Google. Os dois desempenham papéis diferentes na vida dos usuários: o Google tem montanhas de dados sobre o mundo, ao passo que o Facebook sabe uma infinidade de coisas sobre nós e nossos amigos; a pessoa usa o Google para fazer coisas, mas corre para o Facebook sempre que tem um tempinho livre.

Apesar disso, o domínio que as duas empresas exercem e as estratégias que empregadas são cada vez mais parecidos. Ao controlar imensos repositórios de dados, ambas são quase imbatíveis e muito lucrativas, além de dispor de recursos de sobra para fazer apostas ousadas e comprar concorrentes que porventura representem alguma ameaça. E tanto um como outro cobiçam mais usuários e mais dados - o que explica, para além de toda a retórica filantrópica, tamanho interesse em expandir o acesso à internet no mundo em desenvolvimento, usando drones, ou, no caso do Google, balões gigantes.

A questão é explorar os dados para oferecer novos serviços e encontrar novas maneiras de gerar faturamento. A aposta que o Facebook faz em IA é um reconhecimento de que boa parte da resposta está no “aprendizado de máquina” (machine learning) - em que o processamento de dados permite a softwares “aprender” a fazer coisas novas, em vez de terem de ser explicitamente programados para realizá-las. A rede social já utiliza técnicas de IA para identificar pessoas em fotos, por exemplo, e determinar quais atualizações de status e quais anúncios devem ser exibidos para cada usuário. Também vem investindo em assistentes digitais potencializados por ferramentas de IA e robôs virtuais que interagem com os usuários por meio de mensagens curtas. A partir da semana que vem, o Facebook Messenger (que já faz coisas como solicitar veículos Uber) deve ser aberto para receber uma gama mais ampla de robôs. E os investimentos em realidade virtual - a empresa de Zuckerberg adquiriu em 2015 a líder do seguimento, a Oculus, por US$ 2 bilhões - são uma tentativa arrojada de descobrir os rumos que a tecnologia e a comunicação seguirão depois do smartphone.

Acontece que o Facebook enfrenta concorrentes em todas essas áreas. O Google tem usado técnicas de IA para aprimorar seus serviços e guiar seus carros de autônomos. Outras gigantes de tecnologia também investem pesadamente em IA. Quando se trata de assistentes pessoais operados por comandos de voz, o Facebook está atrasado em relação a Amazon, Apple, Google e Microsoft; quando o assunto são os robôs virtuais, a rede social enfrenta a concorrência da Microsoft e de um exército de startups ansiosas por mostrar que eles são os novos apps. E, em sua incursão pelos meandros da RV - que Zuckerberg vê como um trampolim para chegar à “realidade aumentada”, onde a informação é sobreposta ao mundo real - o Facebook também se depara com rivais formidáveis. Com seu óculos HoloLens, o produto mais impressionante que a companhia desenvolveu nos últimos anos, a Microsoft partiu sem escalas para a realidade aumentada. E o Google, que já vinha atuando em realidade virtual, investiu recentemente na pouco conhecida startup Magic Leap.

A magnitude das ambições do Facebook é um reflexo do consenso de que essas tecnologias transformarão a maneira como as pessoas interagem umas com as outras, com os dados e com seu entorno. A IA auxiliará dispositivos e serviços a antecipar as necessidades das pessoas (o aplicativo Inbox, do Google, já sugere respostas para e-mails). Interfaces interativas permitirão que a pessoa fale com uma máquina, instruindo-a a fazer coisas por ela. E serviços se disseminarão por uma infinidade de produtos. Daqui a uma década, a computação tende a assumir a forma de interfaces de realidade aumentada, mediadas por IA, tendo o mundo inteiro à sua disposição. O mundo ao nosso redor estará recoberto de informações, possibilitando novas formas de comunicação, criatividade e colaboração.

É rumo a essa visão ambiciosa que Facebook, Google, Microsoft e outras gigantes de tecnologia tentam avançar. No caminho, porém, enfrentarão questões de privacidade e segurança. Não há como não identificar um quê de vigilância quando tal volume de informações é processado com o intuito de oferecer serviços personalizados - e a reação negativa é garantida, caso as pessoas concluam que não estão sendo devidamente recompensadas por oferecer acesso a seus dados pessoais ou que a segurança não é adequada.

Também haverá preocupações com concentração e monopólio e com o risco de formação de ecossistemas fechados, que dificultam o trânsito entre serviços.

Argumentando que seria “arriscado” permitir que uma empresa fizesse o papel de “porteira” da internet, a agência reguladora do setor de telecomunicações da Índia impediu a implementação do plano por meio do qual o Facebook pretendia levar acesso à web para as camadas de renda baixa do país - que envolvia oferecer acesso gratuito a um conjunto limitado de sites. E o órgão antitruste alemão está investigando como o Facebook lida com os dados pessoais de seus usuários. À medida que seu domínio aumentar, o Facebook se verá às voltas com mais casos desse tipo - como aconteceu antes com Microsoft e Google.

Chegar a um equilíbrio entre o envolvimento cada vez maior na vida de bilhões de pessoas e a transformação disso em lucros vultosos, evitando, ao mesmo tempo, possíveis reações negativas, será um dos maiores desafios empresariais deste século. Mesmo na Roma antiga, os imperadores às vezes viam a multidão se voltar contra eles. Portanto, aplaudam Zuckerberg - e temam por ele também.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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