Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

'Ambiente não é favorável para ajuste fiscal'

Entrevista com

Márcio Pochmann, professor da Unicamp e presidente da Fundação Perseu Abramo

Carla Araújo, Karla Spotorno,Mario Braga, O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2015 | 17h10

A presidente Dilma Rousseff foi rápida em perceber que seria preciso ações para enfrentar "o gravíssimo problema fiscal" neste início de segundo mandato e tomou as medidas que tinham que ser tomadas, sem se importar se teria seu nome e ações associadas aos neoliberais. Essa é a avaliação de Márcio Pochmann, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Presidente da Fundação Perseu Abramo, entidade ligada ao PT, Pochmann, no entanto, acredita que dificilmente haverá sucesso decorrente do ajuste fiscal, porque o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está pedindo sacrifício num momento em que a sociedade já se encontra asfixiada. "Dificilmente haverá sucesso fiscal a ser obtido na marcha de uma economia em recessão", afirmou, completando que o ajuste fiscal, neste ambiente, "equivale a tentar apagar o fogo jogando gasolina".

Para Pochmann, ainda há como conseguir algum crescimento em 2015, mas para isso será necessário uma "inflexão na forma de fazer política".

Abaixo você confere a opinião do economista Márcio Pochmann entrevista de apenas três perguntas dentro da série especial do Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, sobre os cem dias do governo Dilma 2. 

Qual o principal avanço e o principal retrocesso nesses Cem Dias de Dilma 2? 

Márcio Pochmann: A derrota das forças políticas que defendem o retorno do neoliberalismo no Brasil nas eleições presidenciais de 2014 não abalou o vigor e sentido de sua atuação organizada na disputa de projetos de nação em pleno início do segundo governo Dilma. O resultado imediato disso foi a vitória do diagnóstico econômico de que haveria gravíssimo problema fiscal a centralizar os demais males da nação. O 'curtoprazismo' foi reimplantado, distanciando-se da estratégia do desenvolvimento de média e longa duração. A desvalorização cambial pode ajudar as contas externas.

Nesses cem dias, o sucesso do ajuste fiscal dependeu, principalmente, da credibilidade no ministro da Fazenda. Como o senhor acredita que será daqui para frente? 

Márcio Pochmann: Dificilmente haverá sucesso fiscal a ser obtido na marcha de uma economia em recessão. O ajuste fiscal, neste ambiente, apresenta-se pró-cíclico, equivalente a tentar apagar o fogo jogando gasolina. O nível de atividade se reduz, diminuindo as receitas públicas e tornando distante a meta de superávit fiscal. Novos cortes de gastos são anunciados, acelerando a queda no nível de atividade econômica, com menor arrecadação tributária. Não há credibilidade que sustente o impulso empresarial de investir, que não seja a oportunidade de maior eficiência marginal do seu capital, superior a preferência pela liquidez.

O que o governo precisa fazer neste ano para alavancar o crescimento econômico a partir de 2016? 

Márcio Pochmann: A retomada do crescimento econômico com inclusão social, que pode ser iniciada ainda em 2015, requer inflexão na forma de fazer política. A agenda construída nas ruas desde 2013 que, se somada ao reposicionamento do Brasil junto ao novo polo do desenvolvimento mundial expresso pelos Brics, permitiria convergir para a superação dos gargalos artificialmente agigantados pela visão dominante do curtoprazismo.

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