Werther Santana/Estadão
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Fábio Alves
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Ambiente político poderá afetar a trajetória da dívida e ameaçar o teto de gastos

Diante da queda de popularidade de Bolsonaro, investidores temem uma guinada populista do governo que resulte em aumento de gastos públicos

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 04h00

Em meio à alta da inflação e dos juros, além do risco de apagão ou de alguma medida de racionamento de energia elétrica em razão da piora da crise hídrica, os índices de confiança devem engatar uma nova tendência de queda nos próximos meses.

E não faz tanto tempo assim que esses índices se recuperaram do tombo causado pela forte contração da economia durante o auge da pandemia de covid. A deterioração no sentimento agora deve atingir particularmente os consumidores – afetados pela visível perda do poder de compra nos últimos meses – e os empresários do setor industrial.

Já os do setor de serviços ainda se mostram otimistas com o futuro próximo em meio ao relaxamento das medidas de distanciamento social, diante da queda no número de casos e de mortes por covid e também do avanço da vacinação. Mas poderá a confiança no setor de serviços resistir a tantas incertezas no cenário macroeconômico e político do Brasil?

Em agosto, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), caiu 0,4 ponto ante julho, interrompendo quatro meses de alta. O da Indústria (ICI) recuou 1,4 ponto, também após uma sequência de quatro altas seguidas.

Enquanto a confiança do comércio registrou leve queda de 0,1 ponto, a do setor de serviços avançou 1,3 ponto, para 99,3 pontos, seu maior nível desde setembro de 2013.

É difícil prever até onde poderá recuar a confiança de consumidores e empresários, mas uma tempestade perfeita vem se formando com rapidez e turva o horizonte.

Do ponto de vista macroeconômico, vários fatores poderão aumentar o pessimismo dos brasileiros. Primeiro, o desemprego continua elevado. Depois, a inflação segue surpreendendo para cima. Com isso, o Banco Central já sinalizou que o aperto monetário poderá ser mais duro do que o inicialmente previsto.

E, para agravar o quadro, a crise hídrica ameaça o desempenho do PIB neste ano e em 2022, não somente pelos reajustes salgados na conta de luz que o governo vem sendo forçado a autorizar, mas também por possíveis medidas para conter o consumo de energia, voluntária ou compulsoriamente.

Conforme a mais recente pesquisa Focus, do BC, os analistas projetam alta de 7,27% na inflação deste ano e de 3,95% em 2022, e a estimativa do PIB aponta para crescimento de 5,22% neste ano e de 2,0% em 2022. Sem falar que a expectativa é de que a Selic acabe o ano em 7,5%, mas há apostas de juros fechando o ano em 8% ou 8,5%.

Do ponto de vista político, os atritos do presidente Jair Bolsonaro com o Poder Judiciário reacenderam temores de ruptura institucional. Há também os ruídos causados pela antecipação do ciclo eleitoral. Aliás, à medida que a popularidade do presidente Bolsonaro segue caindo, ameaçando sua reeleição no pleito presidencial do ano que vem, os investidores temem uma guinada populista do governo que resulte em aumento de gastos públicos.

Ou seja, o ambiente político cada vez mais adverso para o governo poderá prejudicar também o cenário econômico, piorando a trajetória da dívida pública e ameaçando a manutenção do teto de gastos, a principal âncora fiscal do Brasil. Nesse contexto, o quanto quedas seguidas dos índices de confiança de consumidores e empresários nos próximos meses pode azedar ainda mais o humor do mercado?

“O pano de fundo econômico para os próximos meses tem piorado e, com isso, os índices de confiança podem entrar numa tendência de queda”, diz o economista-chefe da Garde Asset, Daniel Weeks. “O interessante é que isso acontece depois de uma retomada bem vigorosa da atividade econômica e do avanço da vacinação.” Para Weeks, os índices de confiança medem a temperatura da economia de forma mais rápida do que outros indicadores.

“Em termos prospectivos, sou mais cético em usar esses dados para antecipar o que vai acontecer”, ressalta. “Esses índices ajudam a entender de maneira rápida o que está acontecendo hoje com a economia, mas dizem pouco sobre o que vai acontecer lá para frente.”

Ou seja, índice de confiança serve mais como indicador coincidente do que antecedente da economia. Mas, se esse diagnóstico sobre o presente não para de piorar, como esperar uma melhora no futuro?

*É COLUNISTA DO ESTADÃO/BROADCAST

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