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Ameaça à retomada

Uma segunda onda de contaminação coloca em dúvida o modelo de retomada

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 04h00

Desde o início da pandemia do coronavírus, a economia mundial teve um comportamento relativamente sincronizado: a atividade sofreu um colapso em abril, com as medidas de isolamento social, e apresentou uma recuperação mais forte do que se esperava em maio e junho com a reabertura das economias.

Para o terceiro trimestre, a esperança era que a retomada global seguisse robusta, mas uma segunda onda de contaminação do vírus, especialmente nos Estados Unidos, colocou em dúvida se a forma da recuperação será, de fato, mais rápida, em V. O debate sobre o ritmo da atividade abrange outras letras do alfabeto menos otimistas: L, U ou W.

Nos EUA, que vêm batendo sucessivos recordes diários de novos casos de covid-19, com aumento das internações e de mortes, a situação é preocupante em Estados como Califórnia, Texas e Flórida, os quais, juntos, representam cerca de 30% do PIB americano. Na Califórnia, o governador já voltou a adotar medidas mais restritivas, como o fechamento de bares e restaurantes.

Depois de os indicadores de consumo e de produção terem surpreendidos para cima em maio e junho, alimentando o otimismo de investidores e um rali em ativos, como as Bolsas de Valores, o temor é de que os dados de julho possam frustrar e levar a uma revisão para baixo do desempenho do PIB americano neste terceiro trimestre.

Causou barulho a divulgação, na semana passada, do índice de sentimento ao consumidor dos EUA, elaborado pela Universidade de Michigan, para o mês de julho, que recuou para 73,2 ante 78,1 em junho, ficando bem abaixo das estimativas dos analistas, de 77,8.

Os analistas desconfiam que, com o aumento de novos casos em vários Estados americanos, mostrando que a pandemia ainda está fora de controle, os consumidores ficaram mais pessimistas quanto ao mercado de trabalho, caso as autoridades determinem a volta de fechamento de lojas e outros estabelecimentos comerciais não essenciais. Uma piora no sentimento dos consumidores será um obstáculo para a retomada da economia, especialmente no ritmo mais acelerado, em V.

Aumentou, portanto, a ansiedade dos investidores em relação aos índices de confiança e às sondagens do sentimento da indústria e do comércio em julho, uma vez que os dados de alta frequência, como as transações com cartão de crédito, reservas em restaurantes e indicadores de mobilidade, apontam para um esfriamento do ímpeto da retomada desde que o número de novos casos voltou a disparar nos EUA.

Nesta sexta-feira, serão divulgados os índices de gerentes de compras (PMI na sigla em inglês) preliminares para julho dos setores de serviço e manufatureiro dos EUA e da zona do euro. Nos EUA, a expectativa da maioria dos analistas é de que essa sondagem em volte a registrar índice acima de 50 tanto para o setor de serviços, quanto para o manufatureiro. O patamar abaixo de 50 significa contração da atividade.

Essa também é a expectativa para o PMI de serviço e manufatureiro da zona do euro, cuja recessão foi mais profunda e a recuperação tem sido mais lenta do que a dos EUA. É preciso salientar que os europeus adotaram um lockdown mais duro e mais longo do que os americanos. E agora estão com a curva de contaminação e de mortes por covid-19 mais controlada, facilitando o retorno das atividades.

Os chineses também adotaram medidas mais restritivas. A recuperação do PIB da China pós-pandemia surpreendeu: cresceu 3,2% no segundo trimestre deste ano em comparação a igual período de 2019, enquanto a previsão dos analistas era de expansão de 2,6%.

Os analistas do banco JPMorgan avaliam que os países que terão um melhor desempenho na recuperação serão aqueles que conseguirem quebrar a cadeia entre maior mobilidade e taxa de infecção do coronavírus. Muitos Estados americanos relaxaram as regras de isolamento prematuramente, o que gerou impacto econômico positivo imediato.

“Em muitas economias, essa cadeia permanece intacta, o que significa que a maior mobilidade gerou um aumento perturbador do número de novos casos”, dizem os analistas do JPMorgan. Isso será fundamental na diferença entre o desempenho econômico dos países neste ano. Nesse ponto, os EUA estão atrás da China e da zona do euro. E a frustração poderá ocorrer já nos dados deste mês. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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