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Ameaça canadense de retaliação já reduz encomendas de calçados

A ameaça do Canadá de sobretaxar em 100% produtos importados do Brasil começa a fazer vítimas antes mesmo de se concretizar. Preocupados com a possível alta no preço dos calçados importados do Brasil, varejistas canadenses já diminuíram drasticamente os pedidos para reposição de estoques neste início do ano. A atitude não apenas prejudica o pequeno produtor brasileiro de calçados, hoje o principal exportador para o Canadá, mas também o negócio dos importadores de sapatos do Brasil, que já projetam perda de mercado para calçados de China, Itália e Espanha. "Não sei ao certo o que vou fazer se as retaliações entrarem em vigor. Mas já estou avaliando novas opções de trabalho", conta o brasileiro Egon Roberto Szenttamasy, que também tem cidadania canadense. Segundo ele, os próprios varejistas canadenses estão preocupados com a retaliação. O Conselho de Varejo do Canadá (Retail Council of Canada), que reúne cerca de 8,5 mil comerciantes, já encaminhou pedido ao Parlamento para que exclua calçados brasileiros da lista de retaliações que Ottawa já estuda aplicar sobre o Brasil. "O calçado brasileiro é muito bem visto por aqui", diz. O empresário, além de apoiar as ações dos comerciantes, tem pressionando fabricantes brasileiros para que antecipem o máximo possível as entregas ao Canadá para tentar diminuir os prejuízos que acontecerão com as retaliações. Setor rejeita retaliação - O diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca (SP), Ivânio Batista, ressalta que o setor não aceita essa retaliação comercial. "Nada temos a ver com a Embraer", afirma o empresário, referindo-se ao contencioso Embraer/Bombardier, que resultou na autorização da Organização Mundial do Comércio (OMC) ao Canadá para retaliar comercialmente o Brasil em US$ 1,4 bi. O governo canadense afirmou que vai aplicar sanções, mas ainda não revelou a partir de quando.O setor está muito mais preocupado com o impacto das retaliações sobre as micro e pequenas empresas do que com o resultado na balança comercial setorial. De janeiro a outubro do ano passado, Franca vendeu ao Canadá apenas US$ 50 mil. "O número parece irrisório, mas pode significar um enorme faturamento para uma empresa de pequeno porte", ressalta Batista. Segundo ele, há muitos pequenos empresários desesperados por causa das retaliações. "Na última reunião da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados) li várias mensagens de pequenos empresários desesperados com medo da retaliação. Individualmente, os prejuízos dessas retaliações serão graves", diz.Batista destaca, ainda, que o resultado do contencioso Embraer/Bombardier elimina a possibilidade de o setor calçadista tentar ampliar sua presença naquele país. O mercado canadense, segundo ele, apresenta grande potencial de crescimento, pois a população tem alto poder aquisitivo e consome muitos calçados fechados, em razão do frio intenso. "Hoje, Franca vende US$ 50 mil, mas daqui a alguns anos, poderia vender US$ 1 mi. O setor está em busca de novos mercados, mas possivelmente não poderemos contar com o canadense", lamenta. Resultados - No ano passado, as exportações brasileiras de calçados somaram US$ 1,54 bi, dos quais 69% foram para o mercado dos EUA. O Canadá é o quarto principal importador de calçados do Brasil. Em 1999, o País exportou US$ 25,2 mi, ou cerca de 2,6 milhões de pares de calçados aos canadenses, a um preço médio de US$ 9,36. No ano passado, foram US$ 33 mi. "Já verificamos um bom avanço nas vendas para o Canadá de 1999 para 2000. Se as sanções acontecerem, perderemos o que conquistamos. Isso, sem contar que o faturamento de pequenas empresas será bastante afetado", diz Ricardo Wirth, vice-presidente de mercado externo da Abicalçados. Wirth ressalta que é comum importadoras dos EUA comprarem do Brasil e vendem ao Canadá. Caso a sobretaxa passe a fazer parte das relações Brasil/Canadá, até mesmo as vendas aos EUA podem recuar, já que a origem do produto é o que conta na hora da taxação. A Abicalçados diz que não pode fazer nada para evitar as retaliações, pois tudo depende de Ottawa. Mas avisa os associados que não há garantias que, se firmarem contrato com o Canadá, correrão o risco de ter seu produto sobretaxado na hora do embarque, se o governo canadense impuser a sanção de uma hora para outra. "Esperamos que o governo canadense seja sensível às necessidade de seu consumidor, que aceita bem o calçado brasileiro, e não inclua o setor na lista de retaliações. Ou pelo menos que avise o importador sobre as sanções com bastante antecedência, para que possa se organizar", conclui Wirth.

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