Ameaça de renúncia mobiliza Câmara na Argentina

Um dia depois de ter ameaçado renunciar, o presidente provisório Eduardo Duhalde conseguiu o objetivo de assustar o Congresso Nacional. Pressionada pela possibilidade de ficar sem presidente da República pela terceira vez em menos de seis meses, a Câmara de Deputados mobilizou-se rapidamente para debater a eliminação da lei de subversão econômica. A revogação desta lei é uma das exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), sem as quais não liberará a ajuda financeira para o país. Na véspera, Duhalde havia ameaçado as lideranças parlamentares - tanto do governo como da oposição - que renunciaria se esta medida não fosse aprovada. Sem o acordo com o FMI, o governo Duhalde seria insustentável.A Câmara iniciou os debates no fim da tarde de ontem e previa-se que a votação ocorreria somente de madrugada. Diversos partidos da oposição pretendiam apresentar uma nova versão da lei, para evitar sua eliminação. A oposição sustenta que a eliminação da lei - que facilita o processo de empresários e banqueiros envolvidos em casos de corrupção - aumentaria a impunidade jurídica.AjusteAlém do Congresso, Duhalde conseguiu assustar os governadores, que concordaram em reunir-se com ele na cidade de La Pampa para discutir outra exigência do Fundo, neste caso, os acordos individuais de ajuste de 60% nos déficits fiscais provinciais. A reunião, prevista inicialmente para segunda-feira, ocorreria no domingo. De um total de 24 províncias, somente seis assinaram os acordos. Três distritos grandes - a província de Buenos Aires, a cidade de Buenos Aires e a província de Santa Fe - resistem à idéia de ajuste.Ao longo deste fim de semana, o governo Duhalde também terminaria de elaborar um decreto que determinará o destino dos fundos do "corralito" (semi-congelamento de depósitos bancários). O decreto implicaria em uma troca voluntária dos depósitos a prazo fixo por bônus em pesos e dólares.A primeira-dama, Hilda "Chiche" de Duhalde, aproveitou a crise para desabafar: "o presidente está cansado de esperar". Segundo a esposa de Duhalde, é preciso que os parlamentares "comecem a trabalhar".SocoO porta-voz da presidência, Eduardo Amadeo, explicou que na véspera, Duhalde, cansado do impasse político, durante uma reunião com parlamentares deu um soco na mesa, e disse que "nesse ritmo, não me interessa continuar como presidente."A União Cívica Radical (UCR) assustou-se com a ameaça de Duhalde. Se Duhalde renunciar e forem convocadas eleições presidenciais, a UCR seria intensamente prejudicada, já que este tradicional partido, que junto com o Partido Justicialista - também conhecido como "Peronista", o partido de Duhalde - dominou o cenário político no último meio século, poderia não obter mais de 5% dos votos. O interesse da UCR, enquanto tenta se recuperar da caótica gestão de seu correligionário ex-presidente Fernando De la Rúa (1999-2001), é que Duhalde dure o máximo possível, para poder estar um pouco mais em forma para as próximas eleições. Por este motivo, hoje, Angel Rozas, presidente da UCR e governador da província do Chaco, declarou que continuará apoiando o governo Duhalde, embora com "autonomia política". No entanto, frisou: "não colocaremos pedras no caminho".BlejerEnquanto Duhalde pressionava os parlamentares, o setor financeiro portenho respirava um pouco mais aliviado pela decisão do presidente do Banco Central, Mario Blejer, de permanecer em seu cargo. Ontem, tudo indicava que Blejer renunciaria, por profundas divergências com o ministro da Economia, Roberto Lavagna. No entanto, Blejer teria decidido ficar por causa dos insistentes pedidos de Duhalde, "para não agravar a crise". Blejer é visto como o último elo que o governo Duhalde possui com os mercados internacionais, principalmente com o FMI, organismo onde o atual presidente do BC trabalhou durante duas décadas.O dólar manteve-se estável nesta quinta-feira. Nos bancos, a cotação foi de 3,40 pesos. Nas casas de câmbio, houve uma leve queda em relação à quarta-feira - quando fechou em 3,60 pesos - e terminou o dia em 3,55 pesos. ProtestosO Centro de Buenos Aires foi tumultuado por protestos de uma série de setores sociais. Enquanto a city financeira portenha era cenário de manifestação de correntistas furiosos com o "corralito", a Associação de Bancários marchava desde a city financeira até o Congresso Nacional, para protestar contra a partida dos bancos estrangeiros da Argentina. Os bancários também se manifestaram contra a possibilidade de aprovação da revogação da lei de subversão econômica.Enquanto isso, a avenida 9 de Julio - a mais larga do país - era cortada por grupos de desempregados, que pediam comida e trabalho. Também houve protestos de desempregados em diversas cidades da Grande Buenos Aires, onde o desemprego já está atingindo 30% da população economicamente ativa.Ao lado do edifício do Congresso Nacional, integrantes dos diversos clubes de escambo da cidade montaram bancas para comercializar produtos, que trocavam por outros objetos, como quadros, doces e roupas. "Queremos demonstrar que podemos viver sem os bancos", afirmaram os organizadores do movimento.Na cidade de Mendoza, o trânsito foi paralisado por uma manifestação de motoristas de táxis, que protestavam contra o aumento dos combustíveis.Na cidade de Mar del Plata, um grupo de correntistas, junto com aposentados, encenaram um enforcamento do presidente Duhalde. Depois de enforcado, o boneco representando o presidente, foi linchado.

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