carteira

As ações mais recomendadas para dezembro, segundo 10 corretoras

Ameaça ou oportunidade?

Se é verdade que fica mais leve quem desabafa, a sede da Fiesp, na Avenida Paulista, deve ter perdido algumas dezenas de toneladas de tanto que os empresários esbravejam contra a concorrência que lhes fazem os chineses.Se depender apenas de desabafo, o edifício da Fiesp ainda vai perder muito peso, porque a invasão chinesa apenas começou. Quem visita os shoppings centers e os magazines dos países vizinhos do Brasil se espanta com a impressionante oferta dos made in China, com qualidade e design cada vez melhores. Na semana passada, o presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, Benjamin Steinbruck, relatava que, em visita recente a uma grande feira do agronegócio no Uruguai, ficou surpreso com a oferta de maquinário chinês: semeadeiras, colheitadeiras, tratores, implementos - a preços obviamente lá embaixo e, também, qualidade cada vez melhor. Por aí se vê que nem no Mercosul o produto brasileiro vem conseguindo competir com o asiático.A reação típica do empresário brasileiro, depois de maldizer os chineses e o câmbio adverso, é pedir mais proteção alfandegária. Este é um tiro pela culatra. Se for bem-sucedida, a proteção tarifária conseguirá impedir a tomada de segmentos do mercado interno, mas será incapaz de evitar as perdas de fatias crescentes de mercado externo.Como advertiu, terça-feira, o professor José Roberto Mendonça de Barros no Fórum de Economia promovido pela Fundação Getúlio Vargas, essa maneira negativista de enfrentar a concorrência impede o País de aproveitar as enormes oportunidades que tem pela frente. A parcela de riqueza produzida anualmente pela China está muito próxima (em valor) da que é criada pelo crescimento do PIB dos Estados Unidos. Os sinocéticos afirmam que o crescimento chinês é insustentável, um burro manco ao qual não se deve atrelar a própria carroça.Melhor entender que o desenvolvimento da China colocou em marcha um ciclo de longa duração, semelhante ao iniciado pelos Estados Unidos ao final do século 19. Mas a novidade tem uma enorme diferença. Os Estados Unidos emergiram como potência industrial quase auto-suficiente em matérias-primas, a ponto de deixar o Brasil e o resto da América Latina à margem do processo. A escalada chinesa, ao contrário, é muito dependente do fornecimento externo de commodities e energia. Como exigirá o atendimento do consumo de sua enorme população, vai também se atirar à compra de manufaturados.Independentemente dos desabafos, diante do avanço asiático, o Brasil está sem estratégia. Por isso, corre o risco de desperdiçar uma oportunidade histórica. Pode não ter condições de atender à nova demanda por colapso da infra-estrutura, falta de agilidade tanto no investimento como na adaptação industrial e atraso na definição de regras do jogo.A passividade gerencial do governo Lula é preocupante, o PAC está empacado e o risco de um apagão energético é cada vez mais alto. Se ele ocorrer, pode matar logo na largada uma nova arrancada produtiva.Mas, obcecadas pelo diagnóstico frágil de que o crescimento chinês está provocando um processo patológico ("doença holandesa") na economia e paralisadas pelo medo injustificado de que esteja em curso um processo acelerado de desindustrialização, essas lideranças empresariais não ajudam na preparação do salto à frente que o País tem todas as condições de dar.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.