América Latina se divide sobre acordo na Rodada Doha

Argentina, Bolívia, Venezuela e Cuba criticam termos do acordo enquanto Brasil mostra disposição

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

27 de junho de 2008 | 17h06

A América Latina racha em relação ao futuro das negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesta sexta-feira, 27, Argentina, Bolívia, Venezuela e Cuba anunciaram que tem dificuldades em aceitar os termos de um acordo na entidade para fechar a Rodada Doha. Já o Brasil se mostra mais disposto a fechar o processo e mesmo aprova a convocação de uma conferência ministerial em julho para concluir a Rodada. Nos corredores, diplomatas brasileiros não poupam acusações contra a Argentina por estar bloqueando um avanço nas negociações.   Nesta sexta, a entidade confirmou que convocará uma reunião ministerial para o dia 21 de julho para tentar fechar um acordo na Rodada Doha. A OMC estima que a conclusão do processo daria um sinal positivo até mesmo para os mercados diante do compromisso de abertura das economias.   "Com as nuvens negras que vemos na economia todos os dias, precisamos nos preparar", afirmou Pascal Lamy, diretor da OMC. Ele reconhece que há riscos ainda para a conclusão do acordo, mas que existe mais de 50% de chances de um sucesso.   Mas antes disso, a América Latina terá de chegar a um consenso. Uma das poucas vozes dissonantes sobre o processo veio da Bolívia. Para Alberto Dumont, embaixador da Argentina, não há como ter uma conclusão da Rodada sem que flexibilidades sejam dadas aos países emergentes na liberalização de seus mercados.   Já o governo de Cuba foi além e acusou a convocação da conferência ministerial de "atender apenas aos interesses das grandes potências comerciais".   O Brasil sabe que terá de superar diferenças regionais se quiser fechar a Rodada. O Itamaraty conta com o apoio do Uruguai, Peru, Chile e outros países da região que demonstram pressa em fechar o processo.   "O Mercosul está unido. É a Argentina que não", afirmou o embaixador do Brasil na OMC, Clodoaldo Hugueney. "As conseqüências de um fracasso nas próximas semanas seriam muito significativos. Precisamos concluir o processo até o final de julho", disse, apoiando a idéia de um encontro ministerial.   Diplomatas já alertam que as diferenças entre o Brasil e a Argentina estarão no centro da reunião de cúpula do Mercosul, que ocorre no início de julho. No Ministério das Relações Exteriores, a percepção é de que a Argentina quer empurrar para que o Brasil "pague a conta" pela abertura que os países ricos estão pressionando para que ocorra nas economias emergentes.   Ricos   Os países ricos já deixaram claro que apenas aceitam abrir seus mercados para bens agrícolas se os grandes países emergentes fizerem concessões no setor industrial. Os mercados que mais crescem hoje no mundo são os das economias em desenvolvimento e, de olho nisso, americanos e europeus querem garantir barreiras mais baixas para seus produtos.   Mas o governo de Cristina Kirchner já alertou que não irá abrir de forma "irresponsável" seu mercado para as importações e insiste que barreiras sejam mantidas para alguns setores mais sensíveis. A postura faz parte de uma estratégia de industrialização do país.   O Brasil concorda com a necessidade de que haja flexibilidades em um acordo final que dê a possibilidade para os países emergentes e o Mercosul manterem certos setores protegidos. Mas o Itamaraty já deixou claro que estaria disposto a trabalhar com as ofertas que estão sobre a mesa e acredita que progressos foram registrados nos últimos dias. Para a Argentina, o que existe não seria suficiente.   Em Buenos Aires, a esperança é de que a cúpula do Mercosul, marcada para antes da reunião da OMC, resolva a diferença de posição. Mas não é apenas a Argentina que está bloqueando o processo. O governo da Venezuela classificou a convocatória como algo "prematuro". "Há muito ainda para se negociar e não podemos ter pressa", disse um negociador venezuelano.   Para os diplomatas de Havana, outras datas já foram estabelecidas no passado para fechar a Rodada e todas fracassaram por serem "irrealistas e artificiais". "Esperamos que haja uma solução para esse problema logo", afirmou o mediador das negociações de produtos industriais, Don Stephanson. "Nas últimas propostas, há uma maior flexibilidade para o Mercosul. Não há motivos para recusar um acordo", disse.   O Brasil ainda convocou para o dia 19 de julho uma reunião ministerial do G-20, grupo de países emergentes, para que se estabeleça uma estratégia para o encontro ministerial da OMC que começa no dia 21.

Tudo o que sabemos sobre:
Rodada DohaOMCAmérica Latina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.