Americanos e o exemplo do Oriente

Não existe solução rápida para uma economia pós-bolha; Washington precisa parar de culpar os outros pelos próprios erros

STEPHEN R. ROACH, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Que contraste! Depois de passar três anos morando na Ásia, voltei aos Estados Unidos alguns meses atrás, imbuído de um imenso respeito pela forma com a qual a Ásia conseguiu se recuperar após sua própria crise devastadora no fim da década de 90.

Minhas idas e vindas só aprofundaram a convicção de que uma importante mudança no equilíbrio do poder econômico global pode estar próxima, passando agora a pender para o Oriente.

O milagre asiático não é o único fato que reforça minha crença nessa possibilidade. Os EUA perderam o rumo. Durante os anos em que estive longe, o país mudou muito. O desespero provocado pelo alto desemprego crônico está desgastando o moral do país e envenenando o debate político.

Em meados de 2007, quando me mudei para Hong Kong, o desemprego nos EUA estava em apenas 4,6%. Hoje está em 9,6%. E não parece haver esperança de um ressurgimento espontâneo nas contratações.

Como foi possível que a Ásia acertasse enquanto os EUA parecem errar? Suspeito que boa parte da resposta envolva a arrogância que acompanha o poder. Há muito tempo instalados no posto de potência mundial dominante, os EUA pensaram que sua imagem estava garantida para sempre e que seu domínio tinha se tornado um direito. A Ásia, por outro lado, foi muito mais humilde. Aprendeu dolorosas lições com uma série de experiências duríssimas - o caos na economia chinesa após a Revolução Cultural, os choques secundários que atingiram o Japão depois que a bolha do país estourou, e o flagelo das próprias crises econômicas em 1997-98.

Mas a Ásia também foi beneficiada por um reconhecimento profundo dos limites da política econômica. A estabilidade se tornou o mantra da região - principalmente a social e econômica. As medidas públicas asiáticas - fiscais, monetárias, cambiais e regulatórias - têm como foco evitar o tipo de distúrbio que criou tamanho caos nos EUA.

Mas, depois que o gênio sai da lâmpada, os asiáticos se mostram céticos diante da possibilidade de uma solução por meio de medidas públicas. Essa foi a lição aprendida com o Japão e, agora, com os EUA.

Uma lição que mantém as autoridades asiáticas comprometidas com uma abordagem preventiva em se tratando de evitar grandes ameaças à estabilidade.

A China é um caso de importância óbvia. Muito atingido pelo colapso do comércio mundial entre o fim de 2008 e o início de 2009, o governo chinês implementou um agressivo programa de estímulo fiscal para evitar uma situação que poderia equivaler a uma recessão completa.

É significativo que os reguladores chineses tenham agido com rapidez para criar mecanismos de proteção entre a economia real e os mercados de empréstimos bancários e ativos, em dificuldades. Isso difere muito da abordagem japonesa e americana, nas quais bolhas de crédito e de ativos foram aceitas e contaminaram o lado real de suas respectivas economias, com consequências devastadoras.

Marcada pela memória das próprias experiências dolorosas nos últimos 30 anos, os países emergentes da Ásia não confiam na capacidade das medidas contracíclicas de estabilização para restaurar economias afetadas por crises e bolhas.

Por outro lado, os EUA parecem não ter percebido isso. O grande debate a respeito de um novo programa de estímulo está dominando as atitudes políticas em Washington e Wall Street antes das eleições. Implícita nesse debate está a suposição de que o primeiro programa teria sido pequeno demais. Essa argumentação defende que uma aposta maior será capaz de fazer com que a economia se recupere.

É melhor não contar com isto. As lições da Ásia deveriam levar a uma relativização dessa fé cega. Como sugere a experiência japonesa, economias pós-bolha enfrentam grande dificuldade para ganhar tração por meio das medidas econômicas. Se a proporção de 200% entre endividamento e PIB observada no Japão não pôde tirar a economia do país do atoleiro, por que as coisas seriam diferentes no caso dos EUA?

Os EUA precisam aprender a reconhecer o valor da mentalidade asiática em relação à administração econômica e à estratégia das medidas públicas. Não há nada de errado em se concentrar na estabilidade financeira e econômica - nem em empregar todo o poder das políticas regulatórias, monetárias e até cambiais para atingir tal finalidade.

Em vez de criticar a China por usar sua moeda como âncora da estabilidade financeira, Washington precisa se olhar no espelho e reconhecer os perigos enfrentados por uma economia americana desprovida de poupanças, que passou os últimos 15 anos gastando mais do que podia.

A proposta asiática está longe de ser perfeita. Mas a Ásia demonstra disciplina e foco na estabilidade que têm feito falta nos EUA pós-crise.

A verdadeira lição ensinada pela Ásia é a de que não existe solução rápida para uma economia pós-bolha. Washington precisa superar a negação e parar de culpar os outros pelos próprios erros. Os EUA precisam de uma estratégia para o longo prazo. Como a Ásia. / TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL

É MEMBRO DA UNIVERSIDADE YALE E REPRESENTANTE DO MORGAN STANLEY ÁSIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.