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Amizade antes da verdade

Para a maior parte das pessoas, escolher entre a verdade e os amigos é tarefa simples 

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 04h00

Desde 2004, a Oxford University Press — responsável pela publicação do Oxford English Dictionary — divulga anualmente a “Palavra do Ano”. O objetivo é destacar a palavra (ou expressão) que, na opinião de um grupo de estudiosos ligados ao processo de elaboração do dicionário, foi a mais importante no âmbito de discussões realizadas publicamente através de múltiplos meios de comunicação. Em 2016, a palavra escolhida (tanto para versão norte-americana quanto para versão inglesa) foi post-truth, ou “pós-verdade”.

De acordo com o site Oxford Languages, pós-verdade é um adjetivo definido como "relacionado a ou denotando circunstâncias em que fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e à crença pessoal". Ainda de acordo com o site, a palavra foi escolhida em 2016 principalmente em função do referendo que acabou por causar a saída do Reino Unido da União Europeia (“Brexit”) e da eleição presidencial nos Estados Unidos (entre Donald Trump e Hillary Clinton). De fato, estamos vivendo em um mundo no qual, aparentemente, padrões compartilhados sobre o quê é a verdade não existem mais. Fatos claros e objetivos passaram a ser questionados, e mentiras óbvias passaram a ser adotadas por determinados grupos.

Este fenômeno impacta a sociedade de forma dramática: governos, indivíduos, negócios, universidades, organizações – estamos todos sujeitos ao efeito devastador que fake news possuem. Ironicamente, em nenhum momento da história da civilização tantos tiveram tanto acesso a informações e conhecimento como atualmente, e seria razoável supor que isso fortaleceria a ciência, a lógica e o bom senso. Mas lamentavelmente não é o que está ocorrendo, conforme já discutimos aqui.

O poder de narrativas falsas sobre as pessoas parece estar ancorado não na mentira que está sendo contada, mas em como essa mentira serve para fortalecer o elo social que conecta um grupo específico de familiares, amigos ou conhecidos. Em seu artigo “Por que fatos não mudam nossa opinião” (no original, Why Facts Don’t Change Our Minds), o escritor James Clear cita um trecho de seu livro Atomic Habits: “Os humanos são animais de rebanho. Queremos nos ajustar, nos relacionar com outras pessoas e ganhar o respeito e a aprovação de nossos colegas. Essas inclinações são essenciais para nossa sobrevivência. Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nossos ancestrais viveram em tribos. Ficar separado da tribo - ou pior, ser expulso - era uma sentença de morte.”

Em outras palavras, a maior parte das pessoas acredita naquilo que seus pares acreditam. Se tiverem que escolher entre um fato ou um amigo, ficam com o amigo. Se tiverem que escolher entre a verdade e sua identidade social, ficam com a identidade social. Em um mundo no qual literalmente bilhões de pessoas estão conectadas através de redes sociais por algumas das razões que discutimos aqui, a formação desses “agrupamentos sociais” ocorre a uma velocidade sem precedentes. Segundo o filósofo e cientista da computação Kevin Simler, se antecipamos uma recompensa por adotar uma crença específica, ficaremos felizes em fazê-lo independente da forma dessa recompensa: concreta, social, ou uma mistura dos dois.

Em seu ensaio Crony Beliefs (algo como “Crenças Camaradas”), Simler compara nossas crenças a funcionários em uma empresa, contratados porque têm uma função a cumprir. Se um funcionário trabalha bem, sua posição está garantida - caso contrário, é dispensado. Da mesma forma, crenças são como ideias "contratadas" pelo cérebro, cujo trabalho é fornecer informações precisas sobre o mundo: quanto mais precisas, maior a chance de serem mantidas. Mas no mundo real, não basta apenas que o funcionário trabalhe bem - ele ou ela precisa manter boas relações com seus pares, subordinados e superiores. Da mesma maneira, as crenças não apenas precisam ser verdadeiras, mas ainda mais importante, devem garantir aceitação e reconhecimento junto à sociedade. 

Entender a lógica que guia o engajamento aparentemente irracional de tantas pessoas em torno de causas absurdas é uma etapa fundamental para desenvolver estratégias de enfrentamento, que podem assumir múltiplas formas: desde a indiferença (deixando a falsa narrativa morrer por falta de divulgação) até ataques frontais (procurando forçar uma mudança de “time”, com todos os traumas que isso pode acarretar). Uma das formas mais eficientes de propagar as mentiras é através da falsificação de imagens e sons - os chamados “deep fakes”. Esse será o tema da próxima coluna. Até lá.

*FUNDADOR DA GRIDS CAPITAL E AUTOR DO LIVRO "FUTURO PRESENTE - O MUNDO MOVIDO À TECNOLOGIA", VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI 2020 NA CATEGORIA CIÊNCIAS. É ENGENHEIRO DE COMPUTAÇÃO E MESTRE EM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

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