Amorim culpa Obama pelo fracasso da Rodada Doha

?Eleito nos EUA não assume suas responsabilidades como líder?, diz chanceler

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

O chanceler Celso Amorim fez o que deve ter sido um dos mais duros ataques públicos de uma autoridade estrangeira contra o presidente americano Barack Obama desde que o democrata foi eleito e corre o risco de ser até considerado um "incidente diplomático" antes mesmo de Obama tomar posse. Ontem, Amorim disse que Obama não estaria assumindo suas responsabilidades como "líder" e que a falta de um sinal de flexibilidade por parte do presidente eleito na área comercial é o que estaria levando um acordo na Rodada Doha ao fracasso. Para Amorim, se não houver um entendimento agora, dificilmente o processo conseguiria ser relançado no futuro. Em Genebra, já é quase unanimidade de que a Rodada Doha chegou a seu ponto final diante do verdadeiro caos entre os governos.Amorim preferiu culpar Obama, a intransigência do governo de George W. Bush e a pouca coordenação na transição. "Ninguém pode se esconder de suas responsabilidades. Líderes precisam mostrar que são líderes e não podem se esconder", atacou o chanceler, após reuniões ontem em Genebra. No dia de sua eleição, Amorim comemorou e afirmou que esperava construir uma relação de "parceria" entre Brasil e EUA..Os americanos estão sendo intransigentes nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e todos apostam que hoje será anunciado o colapso do processo, depois de sete anos de reuniões e conferências. Washington quer a abertura dos mercados dos países emergentes para aceitar um acordo comercial. Mas o Brasil, Índia e China se recusam a zerar suas tarifas de importação para setores industriais considerados como estratégicos nos EUA. O ministro brasileiro fez questão de reiterar sua oposição às demandas americanas ontem em reuniões na OMC.Para Amorim, o acordo seria uma das formas de dar uma resposta à recessão. Mas voltou a atacar a Casa Branca:. "É irônico que a demanda excessiva (de abertura) venha exatamente do local onde a atual crise financeira se originou.""Esse deveria ser o país que precisaria mostrar maior flexibilidade para ajudar a reverter a crise que eles geraram. Mas isso não vai acontecer se não houver um sinal positivo do próximo governo (americano)", atacou o chanceler.Para ele, o que falta nessa etapa final do processo é um sinal positivo por parte de Obama de que estaria disposto a flexibilizar a posição de Washington no processo. "Ninguém pode se esconder de suas responsabilidades. Líderes precisam mostrar que são líderes e não podem se esconder", atacou o chanceler. "Há uma administração que está negociando um acordo. Mas há outra que está na sombra e que estará assumindo o poder. Se não houver um sinal de flexibilidade dessa outra administração, será muito difícil (ter um acordo)", afirmou. O chanceler deu como exemplo a transição entre o governo de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva para tentar ensinar aos americanos como fazer. "É muito bonito dizer que temos um governo por vez. Mas o Brasil também é uma democracia e também temos transição Tivemos de tomar decisões difíceis no final do governo de Fernando Henrique Cardoso em relação à Venezuela. O governo consultou o presidente eleito Lula e a decisão foi tomada. Ninguém pode se esconder de suas responsabilidades", disse.A negociação de Doha já havia fracasso em julho por causa de um desentendimento entre Estados Unidos, China e Índia. Praticamente todos os governos estavam dando por encerrado o processo e aguardariam a próxima administração americana para retomar a negociação. Mas a crise financeira modificou o rumo do processo. Com a pressão do próprio Lula, o tema voltou para a agenda . Na reunião do G-20, em Washington em 15 de novembro, os líderes se comprometeram a concluir a Rodada Doha até o final do ano e não elevar barreiras comerciais por 12 meses. Mas a estratégia do Brasil era ainda a de conseguir que um acordo fosse fechado antes da posse de Obama, no dia 20 de janeiro. Na realidade, a tática era a de criar uma situação em que 150 países aprovariam um acordo e depois Obama não teria como rejeitá-lo. O problema, porém, é que Obama prometeu durante a campanha presidencial que iria rever todos os acordos comerciais fechados por George W. Bush. Aceitar o da OMC, portanto, seria descumprir de cara uma de suas promessas.

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