Amorim diz que a Alca é uma "abstração"

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse hoje que a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) é "uma abstração" e que não vê, hoje, condições de concluir as negociações para sua instalação antes de 2009. Segundo ele, ainda existem muitas pendências preliminares para serem resolvidas com os Estados Unidos, como a questão dos subsídios agrícolas, das regras antidumping e de propriedade intelectual, que dependem de negociações no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC). "Temos que ter uma idéia de para onde aponta o acordo da OMC antes de avançarmos na Alca", afirmou. "Há uma ligação, queiramos ou não, entre essas duas negociações."Na prática, o prazo final que os Estados Unidos teriam para concluir as negociações seria 2007. Isso porque a liberação concedida pelo Congresso americano para seu governo fazer um acordo livre de emendas - a chamado Trade Promotion Autority (TPA) - vence no meio deste ano e só pode ser renovada por mais dois anos. Sem a TPA, o acordo estaria sujeito a modificações ao passar pela chancela dos parlamentares americanos, o que na prática significaria romper os termos pactuados com todos os países.Em sua exposição na Câmara, o ministro voltou a cutucar os Estados Unidos sobre sua resistência em avançar num acordo bilateral com o Mercosul, enquanto não se resolvem as pendências da Alca. "É curioso que existam acordos de livre comércio dos Estados Unidos com vários países da América Latina e Caribe, menos o Mercosul. Será que isso se deve a uma expectativa americana de conseguir na Alca uma vantagem que não obteria bilateralmente?", questionou Amorim.Segundo ele, é compreensível que o governo americano aja assim, da mesma forma que o brasileiro tenta avançar em acordos comerciais com os demais países latino-americanos. Isso se explicaria pelas enormes diferenças de renda e poder econômico das nações envolvidas. "O que eu concedo ao Equador e ao Paraguai não posso conceder aos Estados Unidos, assim como o que os Estados Unidos concedem ao Caribe não podem conceder a nós", disse o chanceler.Para o ministro, é uma ilusão imaginar que a simples liberalização de comércio pode trazer automaticamente benefícios a todos, dadas as disparidades de renda e poder econômico entre as nações. Apesar disso, ele disse que o governo Lula sempre evitou a polarização entre ser "a favor" ou "contra" a Alca. "Depende de qual Alca falamos. A Alca é uma abstração", disse o chanceler.No segundo semestre deste ano, os 34 chefes de Estado do Hemisfério americano se reunirão em Mar del Plata, na Cúpula das Américas, e o tema da Alca voltará a ser debatido pelos presidentes.

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