Amorim diz que integração com Bolívia será pelo bem ou pelo mal

O ministro das Relações Exteriores, embaixador Celso Amorim, disse nesta terça-feira que a Bolívia é um parceiro estratégico do Brasil, já que faz divisa com quatro estados brasileiros. "É um país com o qual nós teremos que nos integrar de uma forma ou de outra", observou, em audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, que discute a nacionalização do gás e do petróleo na Bolívia."Ou nos integramos pelo bem, pelo comércio, pela tecnologia ou pela cooperação, ou nos integramos pelo mal, pela guerrilha, pelo narcotráfico, ou pelo contrabando", disse.O ministro afirmou ainda que a integração com a Bolívia faz parte de um projeto maior de união sul-americana. Segundo ele, a América Latina é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, se equivalendo apenas aos Estados Unidos. Ele observou que os problemas que atingem os países da América Latina não derivam da política sul-americana, mas de questões internas dos países.Negociações difíceisAmorim ponderou que o preço do gás não pode ser elevado a ponto de inviabilizar a sua utilização pelas indústrias, termelétricas e consumidores em geral. Ele previu, porém, que as negociações entre Brasil e Bolívia serão "longas e difíceis", mas destacou que há três pontos que podem ser favoráveis ao Brasil nessas conversações: a garantia do fornecimento, a abertura para as negociações e a possibilidade de indenização prevista na legislação boliviana. O ministro reforçou a idéia do diálogo entre os dois países nas negociações do fornecimento de gás, depois da nacionalização das reservas de gás natural e petróleo pelo governo boliviano. "A política brasileira nunca será a do porrete e sim a da boa vizinhança", disse.O preço do gás será discutido amanhã, na Bolívia, por representantes do governo brasileiro. Entre eles, o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. O governo boliviano quer aumentar em 60% o preço do gás natural, que hoje é de US$ 3,23 por milhão de BTU.O ministro disse que apesar de toda essa instabilidade, a Bolívia nunca descumpriu o acordo de fornecimento de gás. Segundo ele, o contrato que estipula os preços prevê revisão de cinco em cinco anos. Esse contrato começou em 1999, mas até hoje não foi revisto. "Há possibilidade de revisão agora. E se não houver acordo, vai para a arbitragem", disse o ministro.Risco políticoAmorim observou que a Bolívia é um país com uma instabilidade crônica e que essa instabilidade é estrutural, que provém das desigualdades sociais e étnicas. O ministro explicou que essa situação se agrava e que nos três primeiros anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva já houve quatro presidentes no país vizinho. "Não estamos tratando de um governo estável. A questão do gás sempre esteve presente nesse contexto tumultuado", disse. O ministro ressaltou ainda que a Bolívia vive hoje um período que antecede a assembléia constituinte, que é de natural agitação.Sem dependênciaSegundo o ministro, o Itamaraty está estudando a criação de um Departamento de Energia para tratar não só de gás, mas de etanol e biodiesel. Segundo Amorim, o Itamaraty pode ajudar na execução da diversificação das fontes de energia, sem abandonar a integração sul-americana. Ao encerrar a sua exposição inicial na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Amorim disse que não há uma dependência do governo brasileiro em relação à Bolívia, na questão do gás, e sim uma interdependência.Este texto foi atualizado às 12h55, com inclusão de informações.

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