Amorim faz balanço entusiasmado de reunião do Mercosul

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, fez um balanço entusiasmado da Cúpula do Mercosul encerrada nesta sexta-feira no Rio, apesar das manifestas divergências entre alguns chefes de Estado nos seus discursos. "Não há divergência no essencial, todos estão comprometidos com a integração sul-americana na base da justiça social e desenvolvimento econômico", disse Amorim, acrescentando que "a homogeneidade só existe nos cemitérios, onde há vida há diferença".Nos discursos da reunião de Cúpula encerrada no início da tarde, os presidentes do Uruguai, Tabaré Vazquez, e da Bolívia, Evo Morales, criticaram as assimetrias no bloco. Vazquez chegou a dizer que é preciso "justiça" para fazer valer os direitos dos países menores no bloco. "O diálogo foi produtivo e respeitoso, estamos criando a base para uma integração que tem que respeitar a pluralidade e a diversidade", disse Amorim, que informou que o presidente Lula ficou "muito satisfeito" com os resultados da reunião do Mercosul no Rio.O ministro foi questionado por repórteres sobre uma "perda de identidade" que estaria ocorrendo no Mercosul, hoje um bloco mais político que econômico. Também neste caso, se concentrou no lado positivo. "O Mercosul não está perdendo sua identidade, mas realizando sua identidade. O comércio sempre foi visto como um instrumento para a integração, durante algum tempo pode ter predominado na visão (do bloco), mas o objetivo sempre foi a busca da integração para os povos". O ministro apressou-se em esclarecer que "não digo que o comércio não é importante e é preciso continuar avançando." Amorim disse que o Brasil sai da presidência do Mercosul sem nenhum "complexo de culpa" por ter avançando em vários pontos, como as discussões sobre as frustrações dos países mais pobres no bloco econômico. Segundo ele, hoje o Mercosul não é mais do governo ou só dos empresários, é também de "todo povo do nossos países". O ministro destacou como avanços gerais na reunião de Cúpula do Mercosul no Rio a criação de um grupo de trabalho para discutir a entrada da Bolívia no bloco, as discussões em torno de reduções de assimetriais entre os países e a aprovação de 11 projetos do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) - cinco para o Paraguai, três para o Uruguai, um projeto regional para febre aftosa e dois para reforços na secretaria do Mercosul e na base de dados do bloco.Ele destacou ainda a decisão do BNDES de destinar US$ 200 milhões para a Corporação Andina de Fomento (CAF), "no contexto desses impulsos integracionistas". ItaipuSegundo Amorim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou "muito contente" com os resultados do encontro. "Dos 12 países sul-americanos, 11 estiveram presentes, o que é incomum devido a problemas de agenda", afirmou. Além disso, completou, houve uma série de acordos bilaterais, como o assinado nesta sexta entre Brasil e Paraguai para eliminar a dupla indexação da dívida contraída pela binacional Itaipu junto ao Tesouro Nacional para a construção da maior hidrelétrica do continente.Atualmente, a dívida da empresa, de US$ 19,7 bilhões, tem dois indexadores: uma taxa de juros de 7,5% ao ano (para a maior parte da dívida) e a variação de índices de inflação nos Estados Unidos O acordo prevê a retirada deste último, "em caráter de urgência". Segundo cálculos do governo paraguaio, a medida representa um ganho de US$ 10 bilhões no serviço da dívida da empresa. Não haverá impacto para os consumidores de energia no Brasil. Já os paraguaios terão redução nos preços das tarifas. Antigo pleito paraguaio, o acordo foi assinado nesta sexta por Lula e pelo presidente do país vizinho, Nicanor Duarte.OMCO ministro disse considerar "uma coisa totalmente corriqueira" o questionamento feito pela Argentina, contra o Brasil, na Organização Mundial do Comércio (OMC) no início deste mês. A queixa se refere a sobretaxas cobradas no Brasil, e consideradas ilegais pelos argentinos, para a importação de resinas argentinas para a produção de garrafas PET brasileiras.Amorim disse lamentar que o Mercosul não disponha ainda de instrumentos para resolver esses questionamentos, mas insistiu que "recorrer à OMC é natural". Ele disse também que o encontro ocorrido nesta sexta de manhã entre o presidente argentino Nestor Kirchner e o presidente Lula teve uma pauta "muito ampla" e confirmou que os dois presidentes têm o "mesmo espírito de integração".CríticasNa quinta-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticou o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, por sua participação na reunião anterior do grupo, em Cochabamba, na Bolívia. Chávez afirmou que Garcia coordenou um grupo de trabalho por cerca de um ano para discutir a integração latino-americana, formado a partir de uma carta preparada pelo presidente venezuelano e pelo presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez. "Fizeram não sei quantas reuniões. Trabalhou-se muito por um ano. Chegamos a Cochabamba e disseram: vai haver um informe de Marco Aurélio. E Marco Aurélio falou cinco minutos. Fiquei calmo e ninguém perguntou nada. E eu disse: esse é o informe de Marco Aurélio? Depois de um ano de trabalho?" Garcia deu razão a Chávez: ?A reclamação do Chávez, independentemente da forma, tem um certo fundo de verdade?, disse. Ele disse que foi designado como delegado do presidente Lula na Comissão de Alto Nível de Reflexão Estratégica, encarregada de fazer um documento de 14 ou 15 páginas com recomendações práticas para o futuro da integração sul-americana. Segundo Garcia, a proposta do documento era explicitar divergências, e não a de buscar um consenso diplomático. O problema, porém, é que o documento foi entregue aos governos, que o fizeram passar - segundo a expressão do assessor presidencial - por uma ?rotina diplomática?. Retocado por ministros e vice-ministros de Relações Exteriores, teria perdido 20% do seu conteúdo inicial. ?Se o documento era para os presidentes, eles deviam tê-lo examinado antes de passar pelo filtro A e pelo filtro B?, disse Garcia, justificando a crítica de Chávez.A apresentação muito breve do documento na reunião de Cochabamba, continuou Garcia, deveu-se ao fato de ele já ter sido entregue aos presidentes.

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