Amorim: ONU vai criar grupo para discutir a crise

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que o documento final que será divulgado hoje, ao final da conferência de três dias sobre a crise financeira mundial, cria um grupo de trabalho (GT) para aprofundamento dos itens que foram discutidos. A divulgação do documento oficial ocorre hoje. Em entrevista em Nova York, Amorim disse que a ONU tem a responsabilidade de ter um papel de inspiradora, "pois aqui é o único lugar em que estão todos os (países) representados. Certamente, o presidente Lula vai levar muito em conta o que está sendo discutido aqui e certamente vai ser expressado no G-20", acrescentou.

NALU FERNANDES, Agencia Estado

26 de junho de 2009 | 16h12

Com relação às críticas de que a reunião foi esvaziada e que o documento deve ser fraco, o ministro Amorim argumenta que é preciso ter em vista que "não é coisa fácil" conseguir, como foi o caso, fazer os 192 países concordarem com um único documento. "O documento prova que é possível para as Nações Unidas, um foro de 192 países, ter discussão séria e racional sobre a crise internacional e ter ideias e propostas aprovadas pelo consenso", falou.

Amorim avaliou ainda que a ONU não desbanca o G-20 (grupo das 20 maiores economias do mundo). Ao contrário do Nobel Joseph Stiglitz, que presidiu a comissão que delineou pontos para o documento de recomendações e que havia dito que a ONU era um fórum mais apropriado que o G-20 para discutir a crise, o ministro brasileiro avaliou que o peso do "G-20 é muito mais representativo". E, assim como a ONU, também "agrupa países desenvolvidos e em desenvolvimento".

Amorim acrescentou que um processo de governança em nível global não teria como ser tratado inserindo todo mundo o tempo todo. É por esta razão que os países têm Parlamento, exemplificou. No entanto, o ministro, que classificou a conferência da ONU como oportunidade histórica para mudança, avalia que a assembleia da ONU é uma oportunidade de identificar os pleitos de todos os países e, então, fazer um diálogo com o G-20. "Tem que ter a relação de contato entre membros do G-20 e um fórum mais amplo como o da Assembleia Geral. Isso é importante", ponderou, depois de discursar na ONU.

Dólar

Amorim avaliou também que só o tempo vai dizer se, de fato, uma nova moeda de reserva internacional mundial é viável ou se seria apenas uma discussão acadêmica. "Não sei se o mundo está maduro e se as condições concretas permitem falar em substituir o dólar pelo SDR (sigla em inglês para Direitos Especiais de Saques) ou coisa que o valha", afirmou.

A posição de Amorim se afasta da visão chinesa e indiana, por exemplo. Ontem, na sede da ONU, o ex-diretor do Comitê de Política Monetária do Banco da China (PBoC) Yu Yongding afirmou que o momento representava uma "oportunidade única" para a mudança de moeda de reserva internacional, citando como "viável" a alteração já nos estágios atuais.

Amorim afirmou que os países emergentes "precisam continuar procurando meios criativos para se protegerem das flutuações das principais moedas". A trajetória para recuperação pode ser longa e sinuosa, afirmou. O chanceler destacou o posicionamento do Brasil com relação a uma nova alocação dos SDR do Fundo Monetário Internacional (FMI). A distribuição dos recursos dos SDR precisa considerar as necessidades dos países em desenvolvimento, especialmente dos países mais pobres, avaliou Amorim.

Subsídios

O ministro das Relações Exteriores também avaliou que a eliminação de subsídios dos países ricos seria importante para que as nações pobres consigam sair da recessão, além de contribuir para segurança relacionada à área de alimentos. Amorim destacou que cenário global ainda é sombrio, apesar de alguns sinais positivos. Segundo ele, a situação é particularmente difícil para os países mais pobres.

Amorim acrescentou que o Brasil tem sido um entusiasta do fortalecimento do papel da ONU no debate sobre a crise financeira mundial. "O presidente Lula tem estado pessoalmente comprometido com este objetivo", afirmou. "Países sem voz nas atuais estruturas de governança financeira são capazes de expressar suas visões na ONU". Alguns destes países, continua Amorim, estão entre os mais pobres no mundo e entre os mais atingidos pelo declínio econômico global. "A possibilidade de atingir as Metas de Desenvolvimento do Milênio até 2015 está sendo seriamente ameaçada", avaliou.

O ministro disse também que a contração da demanda obscurece as projeções para a recuperação. "A conclusão da Agenda do Desenvolvimento de Doha enviaria forte mensagem contra o protecionismo, incluindo potenciais efeitos negativos os pacotes de estímulo implementados pelos países ricos", completa.

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