Amorim rebate críticas do FMI à produção do biocombustíveis

Ministro de Relações Exteriores diz que Fundo pode ajudar a combater a pobreza incentivando os combustíveis

Fabíola Salvador, da Agência Estado,

18 de abril de 2008 | 16h50

O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, abandonou o tom diplomático e rebateu as críticas de várias lideranças mundiais que alegam que o aumento da produção de biocombustível é responsável pelo aumento dos preços dos alimentos no mercado mundial e pela escassez em países pobres.  Veja também:Biocombustível de alimento cria problema moral, diz FMIOs biocombustíveis podem afetar a produção mundial de alimentos?  Especial sobre a crise de alimentos Não aceito confronto entre biocombustível e alimento, diz LulaLíderes mundiais pedem urgência contra inflação de alimentosONU pede medidas urgentes contra inflação de alimentos  Ao ser questionado sobre a opinião do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que disse que os biocombustíveis representam "um problema moral", Amorim lembrou que o FMI pode ajudar a combater a alta dos preços dos alimentos. "Se o FMI puder ajudar para que países africanos e países latino-americanos mais pobres possam produzir biocombustíveis que entrem sem barreiras nos países ricos, eles estarão ajudando a renda desses países, e é com renda que você obtém os alimentos", afirmou. Strauss-Kahn disse nesta sexta-feira que a alta dos preços dos alimentos, se continuar, pode gerar a queda de governos e até guerras. Em Brasília, onde participou durante esta semana da conferência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (FAO), o diretor-geral da entidade, Jacques Diouf, disse que já havia alertado que a falta de alimentos pode resultar em aumento da violência mundial. Amorim disse que estava sendo informado das declarações de Strauss-Kahn pela imprensa e que não conhecia os detalhes das afirmações. Após assinar acordos de cooperação na área agrícola com Diouf, Amorim reafirmou que no Brasil a produção de etanol aumentou junto com a produção de alimentos. Ele defendeu o manejo responsável da atividade agrícola e a distribuição da renda, para que, segundo ele, os alimentos cheguem à mesa das populações dos países pobres. "Que me conste, o alimento não estava chegando ao pobre antes. Nunca estava chegando, e ninguém estava reclamando", criticou. Para o ministro, o que a comunidade internacional deveria estar discutindo neste momento é a eliminação total de subsídios da agricultura européia, por exemplo, e na agricultura americana. "Porque, como foi reconhecido pelo próprio diretor-geral da FAO, o que impediu o crescimento da produção de alimentos em países africanos, em países sul-americanos foram os subsídios. Não foi o biocombustível", afirmou Amorim.  "Quer dizer, ninguém na África, que me conste, deixou de produzir alimentos para passar a produzir biocombustíveis. Não produziam alimento e continuam sem produzir alimento porque os subsídios agrícolas da Europa e dos Estados Unidos impedem que isso ocorra", afirmou Amorim, que criticou a continuidade da política de subsídios "para uma agricultura ineficiente". Fonte de riqueza Ele lembrou que no Brasil e em países africanos, os biocombustíveis podem, efetivamente, desde que haja o manejo adequado, ser uma fonte de riqueza, uma fonte de renda, e totalmente compatível com produção de alimentos. O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, lembrou que "não se pode perder essa oportunidade". "Precisamos pensar nos biocombustíveis, mas antes está a produção de alimentos", comentou. "Eu acho que a preocupação inicial pode até ser legítima, eu não estou discutindo. Agora, as conclusões são simplistas, e as conclusões tem como base esse tipo de preocupação protecionista", concluiu Amorim.

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