ANÁLISE: A fonte externa secou

É evidente que o movimento de deterioração observado no balanço de pagamentos não é temporário. A piora do saldo em conta corrente soma-se à piora da conta capital e financeira e explica a verdadeira involução das sobras no balanço de pagamentos, com total no ano somando US$ 7,6 bilhões, ante US$ 21,2 bilhões no mesmo período de 2012.

Felipe Salto, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h11

A fonte do modelo de crescimento do consumo interno acima do PIB, baseado no avanço acelerado da conta corrente bem financiada, com sobra de dólares robusta, suficiente para cobrir as necessidades internas e, ainda, para elevar as reservas cambiais, secou. E isso se deve não apenas a fatores externos (movimentos relevantes na política monetária dos EUA e prolongamento da crise europeia), como também à manutenção de políticas domésticas equivocadas, que não elevaram as condições de poupança e investimento da nossa economia.

Os dados de maio mostram uma balança comercial em recuperação, o que é um alento (saldo positivo em US$ 0,8 bilhão). O movimento deverá persistir ao longo dos próximos meses, mesmo na presença de uma conta de petróleo mais negativa. Essa recuperação deverá ser observada, essencialmente, em razão da retomada das exportações de produtos primários, impulsionada pelo escoamento da safra agrícola. Por esse motivo, a deterioração ora observada nos dados das contas externas são, sim, importantes e preocupam, mas, até o fim do ano, enxergamos que o principal fator responsável por essa dinâmica - a balança comercial - deverá ajudar a "estancar a sangria".

Ocorre que, do lado da conta capital e financeira, os fluxos não se recuperaram. Os Investimentos Externos Diretos (IED) totalizaram US$ 3,9 bilhões em maio, totalizando US$ 22,9 bilhões no acumulado do ano, ante US$ 23,9 bilhões no mesmo período de 2012. Isto é, como a conta corrente está negativa em US$ 39,6 bilhões, o IED financia apenas 57,8% das necessidades de financiamento externo.

É claro que há entradas líquidas pelas demais rubricas da conta capital. Porém, são capitais de pior qualidade, e que não têm sido suficientes para compensar a estagnação do IED e a deterioração relativa, quando comparada à intensificação do déficit na conta corrente. Isso explica o rápido "minguar" observado nas sobras do balanço de pagamentos. Com a retirada do IOF, os fluxos melhoraram e continuarão a melhorar, o que atenua o grave quadro.

Mantém-se, portanto, o sinal amarelo nas contas externas. O governo precisa tomar, urgentemente, medidas no campo doméstico que compensem ou evitem a deterioração dos fluxos externos, tratando de evitar uma redução brusca no consumo, no investimento e no crescimento doméstico a médio prazo.

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