ANÁLISE-Acostumado a juro alto, real não dispara no curto prazo

O cenário ficou mais propício para aqueda do dólar frente ao real, mas a alta de 0,50 pontopercentual da Selic deve ter pouco efeito imediato sobre ocâmbio, segundo analistas ouvidos pela Reuters nestaquinta-feira. O mercado já contava com um aperto monetário, embora adecisão tenha sido mais agressiva que o previsto. Além disso,outros fatores como o cenário internacional e o comércioexterior influenciam as cotações. "O efeito (da alta da Selic) já vinha sendo sentido pelomercado. Conforme (o mercado futuro de) taxa de juro começou aindicar alta, o mercado já foi fazendo a arbitragem. Nãodependia especificamente do aumento da Selic", avaliou JorgeKnauer, gerente de câmbio do banco Prosper, no Rio de Janeiro. O câmbio driblou as medidas tomadas pelo governo paraconter a valorização do real e acumula queda de mais de 6 porcento em 2008. Em 13 sessões de abril, o dólar subiu em apenasuma e, com isso, está no menor patamar desde 1999. Nesta quinta-feira, primeiro dia de vigência da nova Selic,a moeda norte-americana caiu 0,36 por cento, para 1,658 real--bem menos do que a baixa de 1,19 por cento da véspera. Osanalistas evitam cravar uma projeção para a queda do dólar. Marcelo Voss, economista-chefe da corretora Liquidez,citou, por exemplo, que o ciclo de baixa do juronorte-americano pode estar perto do fim --o que daria algumasustentação ao dólar em todo o mundo após um período longo dequeda. CONCORRÊNCIA Alexandre Lintz, estrategista-chefe do BNP Paribas noBrasil, avalia também que não são apenas os ativos brasileirosque estão atraentes no momento. "Teve muita queda de bolsa (nos últimos meses). Nós estamoscompetindo com ativos mais atraentes (pelo mundo), e isso vailimitar" a queda do dólar. Mas há outros fatores que, ao lado do juro, podem pesar afavor da valorização do real. Um exemplo é a atuação deexportadores, que anteciparam receitas no começo de abril eforam responsáveis por boa parte dos mais de 5 bilhões dedólares que ingressaram no país no período. Para Roberto Padovani, estrategista de investimentos sêniordo WestLB do Brasil para a América Latina, esse fluxo--permitido pelo cenário mais calmo no exterior-- pode acabartendo uma influência maior do que a Selic sobre o câmbio. "Com a volatilidade externa caindo, eles (exportadores) sesentem mais à vontade" para antecipar receitas, disse Padovani,que ainda vê espaço para a queda do dólar. No caso do recuo recente do dólar, ele foi acompanhado peloajuste das posições no mercado futuro. Segundo dados da Bolsade Mercadorias & Futuros (BM&F), os estrangeiros praticamentedesmontaram a proteção contra a alta do dólar que construíramno auge da crise global de crédito, o que pode ser visto comoum indicador da direção do câmbio. Sidnei Nehme, diretor-executivo da NGO Corretora, é outroque ainda aposta na valorização do real --e, para ele, o jurotem um papel fundamental nesse processo. Mas reconhece emrelatório que não há atualmente "tanto espaço para a queda dodólar... quanto se teve no ano passado".

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