Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Análise: Alimento, novo vilão da inflação em 2020

Para os próximos meses, ainda não há sinal de que o conjunto de fatores que causaram a aceleração dos preços dos alimentos vai se dissipar

Maria Andréia Parente Lameiras*, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2020 | 04h00

Os dados mais recentes mostram que o cenário inflacionário brasileiro, em 2020, será marcado pela forte alta dos alimentos. Para os próximos meses, não há, até o momento, sinal de que o conjunto de fatores que causaram a aceleração dos preços dos alimentos vai se dissipar. Se por um lado, a demanda externa deve continuar aquecida, por outro, a estabilidade da taxa de câmbio em níveis próximos do atual manterá a rentabilidade dos exportadores, reduzindo, por conseguinte, a oferta no mercado doméstico. Adicionalmente, mesmo com o corte do valor pago pelo auxílio emergencial, a expectativa é de que o consumo das famílias continue respondendo positivamente.

Dois aspectos da inflação merecem destaque. Inicialmente, nota-se que parte dessa elevação vem sendo atenuada pela desaceleração da variação dos demais preços, especialmente os relacionados aos serviços. Em segundo lugar, é preciso pontuar que os efeitos da pandemia sobre os hábitos de consumo trouxeram um descolamento entre a “inflação de direito” e a “inflação de fato”. Por certo, com o isolamento social, a parcela da renda gasta com alimentos cresceu, em todas as classes sociais, gerando uma pressão maior sobre o orçamento das famílias, sobretudo das mais pobres.

Em contrapartida, apesar da queda expressiva em alguns itens, principalmente os relacionados a serviços de recreação e cuidados pessoais, esse alívio não vem acontecendo, de fato, tendo em vista que para a maioria das famílias o consumo desses itens foi reduzido drasticamente. Essa mudança de composição da cesta de consumo, porém, tende a ser temporária, devendo ser em grande parte revertida com o declínio da pandemia e a volta do consumo desses serviços.

*TÉCNICA DA DIRETORIA DE ESTUDOS E POLÍTICAS MACROECONÔMICAS DO IPEA SOBRE O IPCA

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