Análise: Amigos, amigos, negócios à parte

Pragmatismo e realismo deveriam prevalecer acima de questões ideológicas nas relações com os EUA, um de nossos principais parceiros

Rubens Barbosa*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 04h00

O anúncio do presidente Trump de imposição imediata de tarifas sobre as exportações de aço e alumínio do Brasil e da Argentina causou perplexidade. Razão: política brasileira de desvalorização cambial e prejuízo à indústria e ao agronegócio dos EUA. A medida é ilegal, discriminatória e parte de premissas equivocadas.

O Brasil não está praticando uma política de desvalorização do real e o volume do aço brasileiro não prejudica a indústria norte-americana. O agronegócio nos EUA está se beneficiando das medidas protecionistas que afetam as exportações brasileiras, como carne e suco de laranja, e o Brasil atendeu à solicitação de Washington e autorizou a importação, sem tarifa, de 750.000 toneladas de trigo.

O governo brasileiro informou estar em contato com autoridades norte-americanas para defender os interesses comerciais brasileiros e é cedo para apontar as consequências negativas, caso a medida seja mantida.

A aproximação ideológica com os EUA e o acompanhamento em votações nos fóruns internacionais em diferentes áreas, como gênero, direitos humanos, meio ambiente e religião, além de gerar desgaste na percepção externa do Brasil, não encontram reciprocidade nas nossas reivindicações. Apesar de haver aberto mão do tratamento especial e diferenciado na OMC, o governo brasileiro não recebeu apoio imediato no pedido para ingresso na OCDE. O resultado mais importante obtido até aqui foi a assinatura de acordo de salvaguarda tecnológica, que abre boas perspectivas para o País no mercado espacial global.

No momento em que se volta a falar que os EUA poderiam ressuscitar a negociação de uma área de livre-comércio nas Américas (Alca), Washington paralisa a OMC e bloqueia a indicação de juízes para o órgão de apelação, deixando países como o Brasil sem instrumento legal para recorrer contra medidas discriminatórias na área comercial.

Como dizia o insuspeito John Foster Dulles, “os países não têm amigos, têm interesses”. O relacionamento com os EUA vai passar por mais um teste importante quando for realizada a licitação para a aquisição de tecnologia para a implantação do sistema 5G. Como ficará a cooperação com os EUA em áreas sensíveis se ganhar uma empresa chinesa, como a Huawei?

Pragmatismo e realismo deveriam prevalecer acima de questões ideológicas nas relações com os EUA, um de nossos principais parceiros.

*EX-EMBAIXADOR DO BRASIL EM WASHINGTON E EM LONDRES, PRESIDE O IRICE 

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