ANÁLISE-BC arrisca ao esperar parceria anti-inflação com governo

O Banco Central fará um aperto maior no crédito para poder subir menos o juro no esforço de combate à inflação, mas a eficácia dessa estratégia vai depender da disciplina fiscal do governo, dizem profissionais do mercado.

ALUÍSIO ALVES E SILVIO CASCIONE, REUTERS

21 de janeiro de 2011 | 17h23

Para a maioria, a combinação de início do "processo de ajuste da taxa básica" com "ações macroprudenciais", expressões presentes no comunicado que acompanhou o aumento da Selic para 11,25 por cento, quer dizer pelo menos mais duas altas de 0,5 ponto na Selic, aliadas a mais exigências de depósitos compulsórios e requerimento de capital para os bancos.

Ficou cristalino para o mercado o discurso de que um aperto monetário ainda maior seria necessário se tal estratégia não estivesse em curso.

Mas trocar o uso exclusivo do juro por um coquetel de ferramentas monetárias será suficiente para conduzir as expectativas de inflação de volta para o centro da meta de 4,5 por cento, após o IPCA ter subido 5,9 por cento em 2010?

"Um dos temores é que as medidas macroprudenciais se tornem contraproducentes caso se mostrem um pretexto mal disfarçado para evitar o aperto necessário da política (monetária)", avalia Marcelo Carvalho, chefe de pesquisa econômica para América Latina do BNP Paribas.

O desafio para o BC, dizem economistas, será tourear as expectativas de inflação do mercado num cenário de preços de alimentos e de commodities industriais em aceleração.

Na última segunda-feira, a pesquisa Focus do BC com instituições financeiras apontou previsão média de 5,42 por cento para o IPCA de 2011, na sexta alta seguida. Alguns, como o economista Ilan Goldfajn, do Itaú Unibanco, já consideram que a expectativa só converge para os 4,5 por cento no ano que vem.

O raciocínio do BC é de que hoje a economia brasileira depende mais de financiamentos --após a relação crédito/PIB se aproximar dos 50 por cento do PIB-- e que qualquer restrição ao crédito tem mais poder de esfriar o consumo do que anos atrás.

Em dezembro, o BC elevou o compulsório sobre depósitos à vista e a prazo dos bancos e encareceu a oferta de crédito de longo prazo às pessoas físicas nas linhas de consignado e de financiamento automotivo.

A decisão frustrou parte do mercado que já esperava alta da Selic, mas agradou a setores do governo que também enxergam na alta do juro um peso fiscal maior, já que a taxa rentabiliza boa parte dos títulos públicos.

Segundo analistas, para ter êxito a estratégia em curso tem que ser obrigatoriamente acompanhada de um corte convincente no Orçamento federal de 2011.

O governo, que enfrenta pressões para um reajuste maior do salário mínimo além dos 545 reais já anunciados, deve divulgar em fevereiro o tamanho do corte no Orçamento.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que ainda não havia um valor definido, negando reportagem do jornal Folha de S. Paulo de que o corte poderia chegar perto de 50 bilhões de reais.

"A bola está agora do lado do governo", resume Neil Shearing, da Capital Economics. "Está todo mundo esperando vir algo do Orçamento, um corte substancial".

Jorge Lima, consultor financeiro da Previbank DTVM, concorda: "Que algo vai acontecer, é fato. Vamos ver qual será a ajuda da política fiscal em relação à política monetária, porque a inflação realmente não está mostrando folga."

O BC parece estar contando com isso. Já o grosso dos economistas, embora acreditem que algo possa vir, temem que não será no nível necessário. Pelas contas do economista Maurício Rosal, da Raymond James, o superávit primário do governo em 2010, livre de manobras contábeis, deve atingir aproximadamente 1,6 por cento do PIB.

"Para que esse índice volte aos 3 por cento, implica um esforço que nós não acreditamos que vai ser fácil, principalmente porque as despesas públicas discricionárias não são mais que 2,5 por cento do PIB", diz.

(Com reportagem adicional de Vanessa Stelzer e Nathalia Ferreira)

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