ANÁLISE-Brasil pode focar acordos bilaterais após estrago n OM

A falta de um novo acordo de comércioglobal vai reduzir o ritmo de expansão das exportaçõesbrasileiras em alguns setores e poderá levar o país a buscaracordos regionais ou bilaterais para aliviar o estragoprovocado na OMC, onde o Brasil apostou alto. Dirigentes de entidades industriais e rurais, assim comoespecialistas em comércio, não vêem o colapso das negociaçõesda Rodada de Doha como um desastre total, mas acreditam que umacordo poderia acelerar ganhos do país em algumas áreas que semostram carentes no mundo, como alimentos e energia. "Se o Brasil tivesse obtido um resultado como estava maisou menos se delineando, já teria uma promessa concreta,traduzida em acordos, de uma expansão de mercado daqui algunsanos", afirmou Rubens Ricupero, ex-diretor geral da Conferênciadas Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). "Agora não vai ter nada. Mercados por exemplo como o doetanol e agrícolas em geral, a diminuição de subsídios naEuropa e Estados Unidos, não vai haver nada disso. Vamos ficaresperando uma outra tentativa", afirmou. Pedro Camargo Neto, presidente da associação que reúneexportadores de carne suína, afirmou que agora o Brasil deveolhar para outras formas de expandir exportações. "Você não ganha os aumentos que iriam ocorrer agora, mas avida continua", disse Camargo. "O que o Brasil cresceu de exportador agrícola nos últimos15 anos não teve nada a ver com a Rodada do Uruguai, porexemplo, mas sim com o aumento de produtividade, reformaestrutural. Vai continuar nessa linha", acrescentou. OBSTÁCULO DO MERCOSUL O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior doBrasil (AEB), José Augusto de Castro, diz que o país ficourelativamente isolado durante os sete anos das negociações deDoha, ao contrário de outros emergentes como México e Chile,que fecharam acordos em outras esferas. Ele acredita que opaís, de agora em diante, deve correr atrás do tempo perdido. "Os acordos bilaterais têm que ser a saída para o Brasilagora. O problema é que um entendimento tem que ser aceito portodos os parceiros do Mercosul e o Brasil é uma economia muitomaior do que os demais sócios. Os interesses são diferentes",disse Castro. "O caminho daqui para a frente é um caminho interessanteporque vamos ter de trabalhar violentamente para acordosbilaterais de comércio", concordou Humberto Barbato, presidenteda Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica eEletrônica). Algumas negociações paralelas à da Rodada de Doha, como aprópria Área de Livre Comércio das Américas (Alca), foramdeixadas de lado nos últimos anos em favor de um consenso maisamplo no ambiente multilateral da OMC. Mas há quem coloque dúvidas sobre a eficácia de acordosregionais quando se trata de temas mais complexos, como os quetravaram o avanço das negociações em Genebra. "Eu não acredito que não se chegue a um acordo (na Rodadade Doha), seja lá qual for, quando for", afirmou a consultoraem comércio internacional Elisabete Seródio. "Porque nas discussões bilaterais (fora da OMC) não háavanço em temas como subsídios à exportação, acesso a mercado eapoio doméstico que distorce o comércio. Por isso, essesacordos são muito mais políticos, eles geram pouco fluxo decomércio", acrescentou. O diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores deCereais, Sérgio Mendes, vê até um aspecto positivo no fato de oacordo não ter sido fechado agora. Segundo ele, isso dará mais tempo para o país se prepararestruturalmente para um crescimento nos volumes de exportações,principalmente na área agrícola. "Temos que nos preocupar é com ampliar a produção paraatender essa demanda adicional, coisa que hoje não vejo oBrasil preparado em termos de infra-estrutura de transporte emesmo em expansão de plantio." O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, afirmou após confirmaro fracasso nas conversas não saber quando será possível lançaruma nova tentativa para um entendimento. Peter Mandelson, da União Européia, disse que não vê chanceno futuro próximo de resolver os temas que racharam a reuniãode Genebra. O ministro brasileiro Celso Amorim falou em um prazo detrês a quatro anos para uma retomada. (Colaboraram Ana Nicolacci, Camila Moreira, Aluísio Alves,Roberto Samora, Inaê Riveras, Gustavo Nicolleta, RaymondColitt, Taís Fuoco e Isabel Versiani)

MARCELO TEIXEIRA, REUTERS

29 de julho de 2008 | 18h42

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