ANÁLISE: Capital político limitado ameaça as reformas

A percepção da funcionalidade da atual administração para a economia é central na defesa do mandato de Temer

Rafael Cortez*, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2017 | 21h33

O principal efeito da rejeição do parecer do governo sobre a reforma trabalhista pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado diz respeito ao debate político para além das fronteiras do Congresso. Trata-se de uma derrota importante para o governo, mas que não inviabiliza, necessariamente, a aprovação da medida no plenário. Esse revés, contudo, deve reforçar as incertezas relativas ao capital político do governo em meio à grave crise. 

A percepção da funcionalidade da atual administração para a economia é central na defesa do mandato de Temer. A reversão dessa expectativa pode prejudicar o governo na votação para barrar a provável denúncia contra o presidente ser feita pela Procuradoria-Geral da República. A combinação entre agenda de corrupção e percepção de paralisia decisória é mortal para qualquer administração.

Na verdade, uma parte do jogo político da reforma trabalhista está associada à percepção dos agentes econômicos. O governo utilizou a discussão dessa reforma para dar um choque de expectativas no mercado, aumentando a ambição reformista. Ao ampliar o escopo das propostas, o Planalto minimizava os sinais de desconfiança, na medida em que a reforma da Previdência enfrentava dificuldades de tramitação. 

Não por acaso, o Planalto luta para a manutenção do texto aprovado pela Câmara, a despeito da insatisfação do Senado com pontos do projeto, mesmo dentro da coalizão de governo. O Planalto não quer apenas as mudanças na legislação trabalhista, mas quer dar um sinal de que o mandato Temer é ainda funcional para a economia. 

+ TEMER DIZ QUE APROVAÇÃO DA REFORMA TRABALHISTA É 'CERTÍSSIMA'

Para o bem ou para o mal, o destino da reforma trabalhista não antecipa o quadro para a Previdência. A situação das mudanças previdenciárias depende da luta pelo mandato presidencial e da coordenação da base aliada. Resolver a incerteza sobre a continuidade do governo é condição necessária para dar alguma viabilidade à reforma “minguada” em relação ao texto aprovado na Comissão Especial da Câmara.

Independentemente das oscilações de curto prazo, a janela de oportunidade para aprovação das reformas está diminuindo. 

*DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA E SÓCIO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA

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