Análise: Crescimento da China é crucial para América Latina superar crise

Exportações para país asiático poderiam diminuir efeitos da crise mundial na região.

James Painter, BBC

20 de outubro de 2008 | 13h54

As economias da América Latina se encontram em uma posição mais forte para enfrentar a crise financeira global do que estavam no passado. A maioria dos países tem superávit comercial, grandes reservas monetárias e um nível saudável de déficit fiscal.Mas a combinação de uma desaceleração global com a queda dos preços das matérias-primas ameaça reverter a recente tendência de crescimento.O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional já mudaram suas perspectivas de crescimento para a região em 2009.Existe o temor de que os governos tenham que cortar seus gastos em saúde, educação e planos de erradicação da pobreza.A dúvida é se a China poderia diminuir estes efeitos. Nos últimos dez anos muitos países, principalmente na América do Sul, diversificaram seus sócios comerciais e incluíram o gigante asiático.Em 2000, o comércio entre a América Latina e a China alcançava os US$ 13 bilhões. Em 2007, esta soma chegou aos 103 bilhões.SojaA economia chinesa cresceu 13% em 2007 e, para acompanhar este crescimento, o país está importando matérias-primas como soja e ferro do Brasil, soja e oleaginosas da Argentina, cobre do Chile, estanho da Bolívia e petróleo da Venezuela.Atualmente, a China é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, perdendo apenas para os Estados Unidos; o terceiro da Argentina; segundo do Peru e o principal mercado de exportação para o Chile.Se a economia chinesa continuar crescendo, poderia sem dúvida ajudar a manter o crescimento das economias da América Latina.Mas a dúvida é se o crescimento chinês é sustentável e se o país pode continuar absorvendo as commodities da região.O comércio é responsável por 70% da economia chinesa, principalmente a venda de produtos manufaturados baratos para os Estados Unidos e Europa.Mas se a demanda nestas regiões cair, muito provavelmente a produção chinesa será afetada e o superávit comercial do país também.E já existem sinais de desaceleração: as exportações para os Estados Unidos caíram cerca de 20%. Há informações de que os produtores de aço diminuíram a produção em 20% e que milhões de toneladas de ferro estão encalhadas em portos chineses.Opiniões diferentesExistem opiniões diferentes sobre até que ponto a economia chinesa perderá força."Segundo o governo chinês, a economia não vai cair mais além dos 8%", disse David Roche, fundador da consultoria Independent Strategy, de Hong Kong."Mas já está a caminho dos 4%, ainda que (o governo) nunca não diga isto."Outros analistas afirmam que a queda será muito menor e levará a um crescimento de entre 8% e 9%.O que interessa aos países da América Latina é descobrir quais os setores da economia da China que continuarão crescendo e a que ritmo.A demanda por ferro já é vista como instável e a de cobre depende de com qual velocidade a China quer avançar com a expansão da eletricidade a todo o país.VulneráveisArgentina e Paraguai são particularmente vulneráveis a uma queda na demanda chinesa por soja.Desde julho, os preços do produto vêm caindo. E muitos analistas garantem que a notável recuperação da economia argentina desde 2001 se deve, em grande parte, às exportações de soja, principalmente para a China.O Chile, por sua vez, seria afetado por uma queda na demanda de cobre. O minério teve um aumento de 700% entre 2001 e meados de 2008, mas agora o preço está caindo.Porém, diferentemente de outros países da América Latina, o Chile conta com uma ampla reserva, de cerca de US$ 20 bilhões, poupada quando o preço do cobre estava aumentando.No caso da Venezuela e do Equador a demanda chinesa fará pouco para compensar as quedas nos preços do petróleo que estão afetando estes países.Apesar de toda a publicidade dos acordos entre o presidente venezuelano Hugo Chávez e o governo chinês, a Venezuela exporta apenas 250 mil barris de petróleo por dia ao país asiático, enquanto envia 1,5 milhão de barris para os Estados Unidos diariamente. O total de exportações da Venezuela para a China em 2007 foi de apenas US$ 3 bilhões.Matéria primaNo geral, os preços das matérias-primas são provavelmente os maiores fatores determinantes do crescimento econômico de médio prazo na América Latina.Segundo o Banco Mundial, cerca de metade do crescimento da região nos últimos cinco anos foi estimulado pelos altos preços das commodities.O papel da China é crucial. A economia chinesa é, provavelmente, o maior fator para decidir se a atual queda no preço da maioria das matérias-primas é apenas um evento passageiro ou uma tendência de longo prazo.E a crise também pode ter um aspecto positivo. Alguns analistas acreditam que a China poderia aumentar seus investimentos na América Latina. Até o momento, os investimentos chineses na região não chegaram perto dos US$ 100 bilhões que o presidente Hu Jintao prometeu em 2004. Em 2007, estes investimentos foram de US$ 22 bilhões, comparados com os US$ 350 bilhões que companhias americanas investem na região.Os analistas da consultoria Oxford Analytica prevêem que este nível de investimento chinês pode aumentar em um momento em que a China tenta garantir seu estoque de matéria-prima.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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