ANÁLISE: Dados de atividade e inflação mostram estagflação mais profunda

Segundo economistas, o IPCA neste ano pode ficar perto de 9% e o PIB deverá cair até 2%; dados de inflação, emprego e atividade econômica reforçam expectativas ruins

Ricardo Leopoldo, Agência Estado

19 de junho de 2015 | 14h19

SÃO PAULO - Está mais profunda a estagflação do Brasil. Indicadores econômicos divulgados hoje e ontem mostram que a inflação sobe com rapidez enquanto o nível de atividade mergulha numa grave recessão. "O IPCA neste ano pode ficar perto de 9% e o PIB deverá cair 1,5%", comentou José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos. "O quadro de estagflação já existe desde o ano passado, mas agora ingressa num estágio ainda mais grave", comentou.

"A inflação neste ano deverá subir 9% e o Produto Interno Bruto terá forte queda, entre 1,5% e 2%", disse Monica de Bolle, pesquisadora do instituto Peterson de economia internacional em Washington.

O Banco Central divulgou logo cedo que o IBC-Br de abril caiu 0,84% ante março, acima de 0,50% que era a mediana das previsões apurada pelo AE Projeções, serviço da Agência Estado. O BC fez revisões para o indicador nos últimos meses. Em fevereiro, a alta de 0,59% subiu mais um pouco, para 0,70%, na margem. Mas em março, a contração de 1,07% passou para uma queda de 1,51% na mesma base de comparação. O indicador caiu 1,3% em abril no acumulado em 12 meses.

Logo depois, o IBGE informou que o IPCA-15 de junho subiu 0,99%, a maior elevação para o mês desde 1996, quando aumentou 1,11%. O indicador atingiu uma alta de 8,80% no acumulado em 12 meses, marca mais expressiva desde dezembro de 2003, quando chegou a 9,86%. No primeiro semestre, o índice avançou 6,28% e ficou bem próximo do teto de 6,5% da inflação para todo o ano, como foi determinado pelo Conselho Monetário Nacional. Este patamar para o índice entre janeiro e junho é o mais elevado desde os 7,75% alcançados em 2003.

Devido à intensa retração da economia, o mercado de trabalho continua em plena deterioração. Em maio, o fechamento de vagas formais superou a criação em 115.599, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Esse número é pior que o corte de 100 mil vagas como manifestaram nesta semana fontes do governo ao Broadcast, serviço de informações em tempo real da Agência Estado. A mediana das previsões obtidas pelo AE Projeções era o encerramento de 52 mil postos.

A piora do mercado de trabalho formal em maio foi a maior para o mês da série histórica levantada pelo ministério do Trabalho e Emprego a partir de 1992. Segundo o governo, as indústrias lideraram os resultados negativos do Caged no mês passado, com a perda de 60.989 vagas, seguida por -32.602 em Serviços, -29.795 na Construção Civil e -19.351 no Comércio. A boa notícia veio da agricultura, que gerou 28.362 empregos.

E ontem o IBGE divulgou que a Receita Bruta de Serviços em abril subiu 1,7% ante o mesmo mês de 2014. Contudo, ao ser descontada a inflação medida pelo IPCA, ocorreu uma queda de 6,1%, de acordo com Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências. 

Para ela, o indicador deve acentuar a queda, em termos reais, de 2,3% em 2014 para perto de 4,5% neste ano devido a vários fatores, como inflação alta, recuo da produção industrial próxima a 5%, piora do mercado de trabalho e redução da renda disponível das famílias. "Neste contexto, o fraco nível de atividade deve levar o PIB a uma queda de 1,4% neste ano", disse. E o IPCA, com a correção de preços administrados e do câmbio, segundo ela, deverá subir 8,9% em 2015.

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