Análise: Dados do PIB mostram retomada insustentável no médio prazo

Setor que gera maiores encadeamentos na cadeia produtiva, indústria de transformação continua em crise

José Luis Oreiro*, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 09h54

Os dados do PIB do terceiro trimestre de 2019 divulgados nesta terça-feira, 3, pelo IBGE mostram uma economia que parece estar ganhando algum ímpeto de crescimento, mas ainda apresenta ritmo muito baixo de expansão. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o PIB cresceu 0,6%, ao passo que na comparação com o mesmo trimestre de 2018 o crescimento foi de 1,2%, número inferior ao valor revisado do crescimento do PIB de 2018, que foi de 1,3%.

Além disso, uma análise mais cuidadosa dos dados levanta algumas dúvidas pertinentes sobre a qualidade e, mais importante, sobre a sustentabilidade dessa aceleração do ritmo de crescimento. 

No lado da oferta os dados do IBGE mostram que o crescimento foi puxado pela agropecuária, com expansão de 1,3% no trimestre e pela indústria com expansão de 0,8%. Quando desagregamos os dados da expansão da indústria verificamos, contudo, que a expansão foi liderada pela indústria extrativa, com expansão de 12% e pela construção civil, com alta de 1,3%.

A indústria de transformação apresentou uma queda de 1,0% na comparação com o segundo trimestre de 2019, resultado da fraqueza da demanda doméstica combinada com a queda das exportações de manufaturados devido a crise da Argentina e a redução do ritmo do crescimento do comércio mundial. O setor que gera maiores encadeamentos para frente e para trás na cadeia produtiva, a indústria de transformação, continua em crise. 

Do lado da demanda o que chama mais atenção é a queda de 2,8% nas exportações de bens e serviços e o aumento de 2,9% das importações. Esses dados indicam uma deterioração expressiva do saldo da balança comercial, acendendo o sinal de alerta para 2020, em função do elevado déficit em conta corrente como proporção do PIB, que atingiu 3% no acumulado dos últimos 12 meses até outubro de 2019. Nessa toada o crescimento da economia brasileira em 2020 pode ser abortado pela chegada do General Restrição Externa. 

*Professor do departamento de Economia da Universidade de Brasília, Pesquisador Nível IB do CNPq e líder do grupo de pesquisa Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento, cadastrado no CNPq

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