ANÁLISE-Fracasso de Doha ameaça discussão climática e nuclear

O fracasso da chamada Rodada de Doha docomércio global afeta o sistema internacional de negociações aponto de tornar remota a perspectiva de acordos a respeito deoutros temas, como o aquecimento global e a proliferaçãonuclear. "Se não conseguimos nem administrar o comércio, como vamosnos encontrar em posição de administrar novos desafios, como amudança climática", disse a comissária de Agricultura da UniãoEuropéia, Mariann Fischer Boel, depois do colapso dasnegociações na sede da Organização Mundial do Comércio (OMC),em Genebra, na terça-feira. "É um fracasso com consequênciasmais amplas do que as que jamais vimos." Até o final do ano que vem, o mundo precisa definir umtratado climático que substitua o Protocolo de Kyoto, que foiinstituído em 1997 e expira em 2012. A exemplo dos acordoscomerciais, os pactos climáticos precisam ser adotados porconsenso --algo que se mostrou impossível entre os 153 paísesda OMC. Assim, o fracasso de Genebra pode ser um mau presságio paraa reunião do final de 2009 em Copenhague e para os esforçoscontra a proliferação nuclear, especificamente no caso do Irã,segundo analistas. "Isso vai solapar grandemente a confiança na boa-vontademultilateral", disse Mark Halle, do Instituto Internacionalpara o Desenvolvimento Sustentável. "Ninguém acha que podemosconseguir um tratado climático sem superar a profundadesconfiança no mundo em desenvolvimento." A perspectiva para o tratado climático fica ainda maiscomplicada diante do fato de que a Rodada de Doha, lançada em2001 com o objetivo declarado de ajudar os países pobres pormeio do comércio, fracassou por causa das divergências entreEUA e grandes países emergentes. O Protocolo de Kyoto só exige reduções das emissões dosgases do efeito estufa por parte dos países desenvolvidos, mashá a expectativa de que o novo tratado preveja cortes tambémpara grandes nações em desenvolvimento. "Será extremamente difícil (para os países emdesenvolvimento) reconstruir sua confiança no sistemamultilateral com relação ao desejo dos ricos de fazeremqualquer coisa", disse Halle. A ascensão de grandes países emergentes, como Brasil, Chinae Índia, desde o início da Rodada Doha, em 2001, também vaimudar a dinâmica das negociações climáticas, na opinião deBruce Stokes, pesquisador do Fundo Marshall dos Estados Unidosna Alemanha. "Certamente a Índia em particular será um ator-chave emCopenhague", disse ele. "As objeções de última hora da China aoacordo de Doha salientam sua influência, que evidentemente seráainda maior." A Índia resiste particularmente a qualquer exigência deredução de emissões de carbono, e sua posição firme na disputacontra os EUA em Genebra sugere que Nova Délhi terá tambémpouca flexibilidade nas discussões climáticas. (Reportagem adicional de Paul Taylor em Bruxelas) REUTERS ES

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