ANÁLISE: Governo já dava sinais de que adiaria decisão sobre reforma da Previdência

A decisão das cúpulas do PMDB, PTB, PPS e PSDB de fechar questão pela aprovação da proposta serviu para o governo ver que só uma parte de sua base de apoio mostrou-se disposta a tomar uma atitude mais radical

João Domingos, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2017 | 22h21

Não é de hoje que os principais defensores da reforma da Previdência - entre eles o presidente Michel Temer, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) - vinham dando sinais muito claros de que não confiavam mais na possibilidade de votação da proposta ainda neste ano.

No domingo, 10, durante uma entrevista em Buenos Aires, Temer disse que o ideal seria votar em 2017. Mas, se não desse, a questão da Previdência seria resolvida em 2018. Nos dias seguintes Rodrigo Maia diria que ainda não havia número de votos suficientes para que a proposta fosse para o plenário e que só daria início à votação quando a contagem de votos alcançasse 330, 22 a mais do que os 308 necessários e com certeza a margem de segurança que se pede nas questões polêmicas.

Do seu lado, o sempre confiante ministro Meirelles começava também a dizer que o ideal seria votar em 2017. Mas, se não desse, que se buscasse aprovar a reforma no início de 2018. Meirelles chamou ainda a atenção para a possibilidade de um downgrade do Brasil por parte das agências internacionais de classificação de riscos se a situação não for resolvida logo.

Nem mesmo a ata do Copom ficou de fora desse vai não vai. Divulgada na terça-feira, 12, o documento, que rotineiramente costuma apontar para os próximos passos da política monetária, afirmou que um revés na aprovação da reforma previdenciária teria potencial para colocar em risco a trajetória de queda da inflação e elevar o risco do País. Mas os redatores da ata tiveram o cuidado de dizer que a não aprovação agora da reforma da Previdência não seria o fim do mundo para o País.

É de se perguntar, então, para que serviu a decisão das cúpulas do PMDB, PTB, PPS e PSDB de fechar questão pela aprovação da reforma. Serviu para o governo ver que só uma parte de sua base de apoio mostrou-se disposta a tomar uma atitude mais radical, como o fechamento de questão a favor da proposta. E que o PSDB, embora rachado, está disposto a enfrentar a questão. Senão o todo, pelo menos uma parte. DEM e PP também haviam comunicado que poderiam seguir o mesmo caminho.

A partir de agora o governo pode mudar sua estratégia. Até fevereiro, quando acaba o recesso parlamentar, os defensores da proposta terão mais tempo para convencer congressistas de que, em troca do voto pela reforma da Previdência, o governo poderá liberar cerca de R$ 3,8 bilhões para as emendas parlamentares no ano em que todo mundo tentará a reeleição. Liberação de emendas significa obras. E obras rendem votos. Essa linguagem funciona melhor do que o fechamento de questão, medida que não causa medo em ninguém. Até porque não há no Brasil tradição de punir infidelidade partidária.

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