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Análise: Hollande, de idiota e mentiroso a sábio

Mas o que foi que aconteceu? A França, que davam como moribunda, no fundo do abismo, a França, que acumulara dois trimestres em recessão, no fim de 2012 e começo de 2013, saiu da letargia e volta a ligar os motores. Os franceses esfregam os olhos. Leem e releem os últimos números do jornal 'Le Figaro' e dizem que não é possível. Todos os números demonstram que a França está em "queda livre". Mas como? É incompreensível: um país não pode estar em declínio e ao mesmo tempo crescer.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2013 | 02h02

Então se rendem à razão: a notícia é fidedigna. O anúncio foi feito ontem pelo Instituto de Estatística (Insee): no segundo trimestre de 2013, o crescimento apresentou um avanço de 0,5%. Um salto que ninguém julgava plausível. Ninguém, com exceção do chefe de Estado François Hollande, que, há um mês, não parava de proclamar que a França estava saindo da crise. Pobre Hollande: cada vez que ele voltava a bater nessa tecla, as pessoas achavam graça. Ou é um mentiroso ou um idiota, diziam. E, no entanto, o Insee afirma de repente que Hollande não era nem um sonhador nem um palhaço.

É preciso notar outro sinal de encorajamento: essa reviravolta (tímida) da conjuntura não é observada apenas na França. Ela acontece na Europa como um todo. Os números divulgados no mesmo dia pelo Eurostat são claros: toda a União Europeia começa a respirar aliviada.

A zona do euro recupera um pouco de energia. É claro que vários países continuam em declínio (Grécia, Espanha, Itália), mas em média, em seu conjunto, o continente avançou 0,3%. Esse resultado inesperado foi obtido graças a três economias que voltaram a ser o que eram tradicionalmente, os motores da Europa: Alemanha (0,7%), Grã-Bretanha (0,6%) e França (0,5%).

Entretanto, nada de ilusões. Esse pequeno salto é fraco. No caso da França, não é absolutamente suficiente para reverter a curva mortal do desemprego que continua em alta. Mas, se analisarmos detalhadamente os indicadores, veremos que na Europa em geral dois deles são animadores: as exportações retomaram. E sobretudo o consumo interno, depois de meses de declínio, está em alta.

Nesse sentido, o presidente Hollande jogou de maneira certa. Ao anunciar antes dos especialistas e até mesmo antes do 'Figaro' que a "crise europeia" tinha acabado, ele se arriscou muito. Mas, se a frágil retomada assinalada ontem continuar, e se consolidar, Hollande recolherá seu prêmio. Passará de "palhaço" a "sábio".

É por isso que os próximos meses serão decisivos. Se o pequeno estremecimento de ontem desaparecer, se a melhoria momentânea desaparecer, então a satisfação mostrada pelo governo francês se transformará em embaraço. Se, ao contrário, a progressão da economia europeia e francesa se confirmar, Hollande finalmente ganhará sua faixa de chefe de Estado.

Podemos confiar nele em um ponto: Hollande é um homem hábil, que sabe controlar seus sentimentos. Ele não sofre de um ego doentio. É uma das virtudes desse homem sem "carisma" nem sedução: a constância e a modéstia (aparente ou real).

Basta ver o que aconteceu no Mali, na África. Há oito meses, Hollande mandou o Exército francês socorrer o Mali. Ele derrotou os terroristas. Permitiu que o Mali, libertado, organizasse eleições livres, que transcorreram perfeitamente. Outro, no lugar de Hollande, teria comemorado a vitória indefinidamente, Hollande contenta-se em afirmar que está contente porque o Mali reencontrou a paz e a serenidade. Muito bem!

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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