Gabriela Biló/Estadão
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Novo ministro terá de lidar com alta de combustíveis e manobra por R$ 100 bi para 'Centrãoduto'

Sachsida trabalhou na campanha do presidente em 2018 e desde o início da transição esteve ao lado de Paulo Guedes

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2022 | 10h28

BRASÍLIA - Nem um político nem um técnico do setor. O presidente Jair Bolsonaro colocou um economista e auxiliar fiel do ministro da Economia, Paulo Guedes, no comando do Ministério de Minas e Energia.

Secretário Especial de Guedes e bolsonarista de carteirinha, Adolfo Sachsida assume o cargo no lugar de Bento Albuquerque em meio à necessidade de administrar dois problemas gigantes para o presidente: a alta dos preços de combustíveis e das tarifas de energia, combinada com as propostas criativas que saem das entranhas do governo e do Congresso para atacar o problema. Além disso, tem que lidar com a manobra do Congresso para destinar R$ 100 bilhões do Orçamento para bancar a rede de gasodutos, batizada de 'Centrãoduto'.

Almirante de esquadra, Bento costumava ser chamado nos bastidores do Ministério da Economia de “o submarinista” em razão de ele sempre "submergir" quando esquentavam as crises no setor, cada vez mais profundas depois da pandemia da covid-19 e da guerra da Rússia com a Ucrânia, que promoveram uma escalada de alta de preços no mercado internacional com forte impacto na inflação.

Já faz tempo que Guedes e sua equipe não tinham uma boa relação com Bento e as críticas à sua condução dos problemas mais recentes se avolumavam. A escolha de Adriano Pires para o comando da Petrobras, que acabou se frustrando pela sua relação com lobistas, entre eles do gás, foi um desses momentos. A equipe econômica se posicionou contrária à concessão de subsídio, defendida por Bento e o mundo político.  

Com viés fiscalista e defensor da consolidação das contas públicas, o novo ministro de Minas e Energia é também próximo ao presidente Bolsonaro. Essa aproximação nos últimos tempos aumentou. Ele já acompanhou o presidente em viagem ao entorno do Distrito Federal e frequentemente posta fotos na sua conta nas redes sociais ao lado de Bolsonaro. No Ministério da Economia, opinava em quase todos os assuntos e conduziu uma agenda microeconômica que criou 14 novos instrumentos financeiros que segundo ele vão fazer uma "revolução" no crédito.

Sachsida trabalhou na campanha do presidente em 2018 e desde o início da transição esteve ao lado de Paulo Guedes, chamado por ele de “o melhor ministro da economia da história do Brasil”.

Já alertou recentemente para os riscos da criação de medidas que gerem receio sobre a consolidação fiscal, entre elas propostas para reduzir o preço dos combustíveis. “Risco país sobe, real se desvaloriza, combustíveis sobem”, disse sempre se posicionando que cabia ao governo mostrar que esse tipo de medida não vai ter o resultado esperado. É um crítico contumaz da forma de comunicação do governo nessa área.  

As implicações reais dessa mudança no comando da política energética ainda são uma incógnita até mesmo para os colegas mais próximos de Sachsida. Muitos ainda surpresos com a escolha do presidente. Um ponto é ressaltado: haverá uma maior integração da equipe econômica com as decisões de política energética. O Ministério da Economia vinha perdendo poder de influência nessa relação bilateral. Um colega dele no ministério da Economia diz que Sachsida pode “arrumar a casa” e negociar uma saída para a tentativa de suspensão dos aumentos de preços da tarifa de energia pelo Congresso, medida que quebra contratos e pode trazer insegurança jurídica.

A frase mais recorrente do novo ministro é justamente a de que o Brasil é um porto seguro para investimentos. Se espera também no Ministério da Economia  ele possa fazer uma ponte do Ministério de Minas e Energia com a regulamentação da agenda verde desenhada com outras áreas do governo. Muitas dessas medidas serão plataforma eleitoral do presidente na tentativa de mudar a imagem ruim na área ambiental.

O presidente “candidato” à reeleição, por outro lado, cobra soluções para reduzir o impacto da alta de preços de combustíveis e energia. Como mostrou o Estadão, a pressão por um subsídio foi renovada com o aumento desta semana do diesel. O reajuste não cobriu a defasagem integral de preços e se espera também uma subida da gasolina. Mais pressão pela frente. 

O ponto chave é saber como Sachsida vai conciliar sua visão de politica fiscal com os arroubos e cobranças do presidente, que na live da semana passada disse que o lucro da Petrobras era um "estupro". Na equipe econômica, há um ponto de consenso: a questão dos combustíveis só se resolve com a melhoria do cenário internacional. No mais, tudo será enxugar gelo. A pergunta agora que todo mundo faz é se Sachsida terá força para influenciar o presidente com essa visão.

O grande teste político para Sachsida será como vai lidar com o Centrãoduto que prevê a destinação de R$ 100 bilhões do Tesouro para bancar rede de gasodutos que beneficia, na prática, o empresário Carlos Suarez e seus sócios e que vai na contramão de tudo o que ele defendeu até agora de maior competição e políticas pró-mercado. Como mostrou o Estadão, o governo passou a apoiar a rede de gasodutos bancada com dinheiro público.

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