ANÁLISE: Para economistas, o pior do PIB ainda está por vir

Recuo menor que o esperado no primeiro trimestre aponta para resultado ruim no segundo trimestre do ano com maior deterioração do mercado de trabalho

Álvaro Campos e Maria Regina Silva, Agência Estado

29 Maio 2015 | 10h33

Atualizado às 11h50

SÃO PAULO - Apesar da queda menos intensa que o esperado do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, o resultado sinaliza que o pior ainda está por vir, segundo economistas ouvidos pela Broadcast, serviço de informações da Agência Estado. A recuo foi menor do que a mediana das projeções, de -0,5%, e bem melhor do que o esperado pela SulAmérica Investimentos, que previa contração de 1%. Mesmo assim, o economista-chefe da gestora, Newton Camargo, diz que não deve revisar sua projeção para o ano, de encolhimento de 1,6% da economia brasileira. 

"O PIB do primeiro trimestre foi um certo alívio, mas é uma premonição de que o pior ficou para o segundo trimestre. O que acontece é que haverá uma maior distribuição das quedas", afirma. Camargo diz que ainda está recalculando suas projeções, mas acredita que o PIB do segundo trimestre pode cair 1%, na margem. "O impacto dos ajustes fiscal e monetário deve ser mais forte no 2º trimestre", comenta. 

Para o economista Bernard Gonin, da Bozano Investimentos, os dados indicam que o resultado previsto para o PIB fechado de 2015 pode não ser tão negativo quando o imaginado. No entanto, o fato de os números terem mostrado um recuo menos intenso que o projetado deve se refletir sobre o PIB de 2016, fazendo com que o dado tenha um desempenho aquém do esperado. "A economia ainda não chegou no fundo do poço. Deve ficar pior no meio do ano", estimou.

De acordo com o economista, o PIB do primeiro trimestre indica que os demais resultados deste ano podem ser piores, já que nem todas as notícias desfavoráveis refletiram sobre o número. A expectativa do economista de retração do PIB de 1,6% este ano pode ser revista para recuo perto de 1,3%, enquanto o PIB de 2016 pode ter alta na faixa de 0,50%. "Isso é bastante ruim para o PIB de 2016. Se os dados piorarem, o carrego estatístico para o ano que vem é maio", disse.

Gonin acredita que o mercado de trabalho tende a se deteriorar mais, o que deve diminuir mais a renda dos trabalhadores. Segundo ele, esse movimento já pode explicar o desempenho do consumo das famílias do PIB do primeiro trimestre que caiu no período. "Essa cautela das famílias só tende a se agravar. Já temos dados mostrando expectativa de desemprego em 8% este ano", completou.

Ao contrário do consumo das famílias, o economista ressaltou que o PIB da agricultura "salvou" a economia. "Os investimentos viram um pouco melhores também, não vieram com quedas tão fortes quanto as esperadas", completou.

Com o resultado melhor do que o esperado no primeiro trimestre, a Tendências Consultoria Integrada deve revisar para baixo a projeção de queda de 0,2% que estimava para o segundo trimestre. "Está com cara de que o pior ficou para depois", disse a economista e sócia da consultoria Alessandra Ribeiro. Ela ponderou, contudo, que a princípio não vai alterar a projeção para o ano. Para 2015, a consultoria prevê recuo de 1,4% na economia brasileira.

Investimentos. Segundo Newton Camargo, da SulAmérica, os investimentos em produção, que caíram 7,8% no primeiro trimestre, devem continuar recuando, refletindo a queda na confiança de empresas e famílias e também a contenção nos gastos do governo. "A deterioração da economia já está ficando clara, de forma eloquente, em dados como o Caged de abril, que teve um fechamento de vagas muito significativo", aponta.

O economista da SulAmérica diz ainda que a retração dos investimentos é preocupante pois afeta o potencial de crescimento à frente. "Tudo isso somado, não permite apostar em um cenário melhor". (Com informações de Igor Gadelha)

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