Análise: Perto do Natal, hermanos entregam ‘presente’ ao Brasil

Ao taxar ainda mais a exportação de trigo e as compras feitas no exterior, Fernández prejudica consumidores brasileiros e aqueles que, sobretudo no sul do país, se beneficiam do fluxo de turistas vindos da Argentina

Vinícius Rodrigues Vieira*, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 04h00

O pacote do novo presidente argentino, o peronista Alberto Fernández, para combater a crise econômica em nosso principal vizinho tende a trazer perdas significativas e quase nenhum ganho para o Brasil. Ou seja, trata-se, à primeira vista, de um presente de grego às vésperas do Natal.

Isso porque ao taxar ainda mais a exportação de trigo e as compras feitas no exterior, Fernández prejudica respectivamente os consumidores brasileiros e aqueles que, sobretudo no sul do país, se beneficiam do fluxo de turistas vindos da Argentina na alta temporada de verão. Em contrapartida, o aumento do custo de demissão sem justa causa de trabalhadores na Argentina poderia, no curto prazo, contribuir para controlar a recessão que sacrifica os hermanos, assegurando, assim, a manutenção da demanda por manufaturados brasileiros. 

Fernández não tem muito o que fazer a não ser enxugar gelo enquanto ganha tempo para pensar em medidas de longo prazo. As alternativas disponíveis ao esforço de aumentar a arrecadação e limitar a saída de dólares causariam inevitavelmente fortes reações de investidores internacionais. 

É o caso de uma eventual moratória da dívida externa, que em 2018 já ultrapassava 50% do produto interno bruto do país. A suspensão de seu pagamento contaminaria a percepção de investidores estrangeiros acerca da América do Sul como um todo, região que já sofre com desconfiança do mercado em relação à continuidade das manifestações que a sacodem desde a crise chilena.

Assim, o presidente Jair Bolsonaro se apressou ao expor medo por uma eventual “venezuelização” da Argentina, cenário em que cidadãos do país vizinho buscariam refúgio no Brasil. Apocalipse de verdade seria embarcar numa crise regional de maiores dimensões que a recente agitação política proporciona.

O pãozinho pode até ficar mais caro – ainda que compremos mais trigo de Canadá e Estados Unidos, a distância desses fornecedores implica custos logísticos elevados. Só não podemos nos dar ao luxo de ter uma Argentina brigada com os mercados internacionais. Pensando bem, até que Fernández deu um presente a Bolsonaro. Se impedir que a situação da Argentina piore, o pacote também é lucro deste lado da fronteira.

* PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA FGV

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